Durante o governo Bolsonaro, Lula e o PT fizeram do preço dos combustíveis um símbolo do que chamavam de “desgoverno”: cobravam responsabilidade, apontavam a Petrobras, criticavam a política de preços e repetiam que o povo não podia pagar a conta. O Blog analisa a situação com um comentário objetivo sobre o tema. Assista:
Era um discurso que pegava porque o bolso é a urna diária do brasileiro e porque, entre 2021 e 2022, o país conviveu com picos de inflação, dólar pressionado e repasses sucessivos nas bombas, num contexto internacional que incluiu pandemia, gargalos logísticos e guerra na Ucrânia.
O tempo passou, Lula voltou ao Planalto, mudou a gestão da Petrobras, trocou a regra de preços e prometeu que “abrasileirar” a política iria aliviar a vida do consumidor. Só que, para o cidadão comum, a pergunta continua a mesma: por que a gasolina está tão cara? Se em Natal e em várias capitais brasileiras a gente já vê gasolina batendo R$ 8 em postos, a narrativa do “culpado é o presidente anterior” vira desculpa velha. Governo é governo: quem está no comando tem o dever de explicar, agir e bancar o resultado, bom ou ruim.
A verdade é que o preço final nunca depende de um único fator, e isso também precisa ser dito com honestidade. Tem petróleo no mercado internacional, tem câmbio, tem custos e margem de distribuição e revenda, e tem imposto estadual. Mas também tem decisão política: a escolha do modelo de preço na Petrobras, o grau de intervenção, a disposição de enfrentar distorções e, principalmente, a coragem de dizer a verdade quando a promessa não entrega o que o discurso vendeu. Lula sabia disso quando apontava o dedo para Bolsonaro. Agora, com a gasolina flertando com R$ 8, a cobrança volta como bumerangue.
O ponto central é a coerência. Se o argumento antes era “o presidente tem responsabilidade porque influencia a Petrobras e a economia”, então hoje vale o mesmo critério. Se antes era “o povo não pode pagar”, hoje também não pode. E se a explicação agora é “a culpa é do mercado”, “é do ICMS” ou “é do dólar”, então por que essa complexidade não era reconhecida quando a crítica era útil politicamente? A gasolina cara virou um teste de realidade: prometer solução é fácil; difícil é segurar o preço na bomba sem produzir artificialismo, insegurança ou mais conta lá na frente.
No fim, fica a pergunta que resume o desconforto: e aí, presidente? Quem governava ontem tinha que responder pelo preço. Quem governa hoje também. O brasileiro não abastece com discurso, abastece com dinheiro.