Muitos reis, em especial da Idade Média, ficaram historicamente conhecidos por seus apelidos peculiares. Ricardo virou Coração de Leão; Ivan se tornou Terrível. Vlad era tão bacana que virou o Empalador. Tivemos Elizabeth, a Rainha Virgem; Sancho, o Gordo; Pedro, o Cru; Carlos, o Enfeitiçado e até Pepino, o Breve, rei dos francos de 752 a 768. que era Breve por ser baixinho.
Como seria se aplicássemos semelhantes alcunhas numa entidade moderna, tipo… a Fifa ou a CBF? Na primeira, estaríamos no meio do governo de Gianni, o Calvo — sucessor de Joseph, o Confuso. Que veio depois de João, o Perene. O primeiro monarca da CBF, em sua configuração atual, teria sido Giulite, o Sério, que governou de 1980 a 1986 e foi sucedido por Otávio, o Velho (1986-1989). A seguir tivemos o reinado de Ricardo, o Longo — que imperou por 23 anos até ser forçado a abdicar em 2012.
A partir daí, o trono se tornou elétrico. O sucessor de Ricardo foi emboscado por tropas estrangeiras. Se viu deserdado, degredado e humilhado: teve até o nome apagado da fachada do castelo. Entrou nos livros como Marin, o Preso (2012-2015). Seu vice, Marco Polo, o Amoroso (2015-2017), escapou do cerco inicial. mas acabou fulminado em sua nau pelos mesmos adversários.
De sua queda emergiu a figura improvável de Nunes, o Emudecido (2017-2019), o regente militar que não podia falar. Por dois anos ele desesperou acólitos ao se aproximar de qualquer microfone. A solução foi Rogério, o Desditoso (2019-2021), que tropeçou nas tentações do poder.
As pardas eminências que tecem realidades se viram sem muitas opções. Optaram por um delfim baiano: Ednaldo, o Curto. Mas a inabilidade do escolhido logo se tornou flagrante. As histórias de seu desconfiado reinado ilustrariam sete volumes. Ele conseguiu ser deposto, reposto, aclamado e ejetado em menos de quatro anos (2021-2025). Para assumir o assento foi pinçado então Samir, da Casa Xaud, soberana eterna da capitania de Roraima.
Samir, o Ungido, deu prumo ao barco, deixando os operadores operarem. Talvez tenha aparecido demais para o paladar de alguns de seus artífices mas assim é a corte. Agora já se especula sobre o futuro — se Samir estenderá seu reinado em 2029 ou se será substituído por Gustavo, o Chanceler… ou Francisco, o Príncipe.
O primeiro, o brasiliense Gustavo Dias, é hoje uma espécie de primeiro-ministro da CBF. O segundo, Francisco Mendes, filho de Gilmar, supremo magistrado, que guarda conhecida influência sobre a entidade. Francisco sempre negou a ambição — mas alguns já falam nele como candidato, talvez para inviabilizá-lo.
É cedo. Há uma Copa agora e outra no ano que vem. A nova gestão produziu vários acertos — como a redução dos estaduais e ajustes na arbitragem. Em fazendo o básico, pareceu colocar o trem nos trilhos. Agora trabalha para retomar o controle das competições — e impedir que os clubes criem uma liga externa. Escaramuças já indicam o conflito com a FFU. A CBF se aproximou da Libra e conta com Palmeiras e Flamengo como aliados. O Grêmio fez que foi para a FFU e acabou ficando — ouvindo conselhos de alta voltagem.
As peças se movem no tabuleiro. O futebol nos ajuda a explicar o Brasil. Nesse tempo de delações, CPIs e desconfortos, é quase interessante observar como anda o espelho.
Gustavo Poli - O Globo