Ela começa, muitas vezes, como algo banal: uma infecção urinária, uma pneumonia, uma ferida aparentemente simples. Em poucas horas, porém, pode se transformar em uma cascata devastadora, levando à falência de órgãos e à morte. A sepse é essa doença traiçoeira, silenciosa no início e implacável na evolução, e continua sendo uma das principais causas de morte no mundo. De cada 10 pacientes brasileiros com sepse, 6 morrem. Ainda assim, a doença permanece subestimada, pouco compreendida e frequentemente reconhecida tarde demais.
Nesta semana, foram publicadas as novas diretrizes internacionais da Surviving Sepsis Campaign 2026, um dos documentos mais relevantes da medicina intensiva global. Elas reforçam um ponto central que precisa ecoar para além dos hospitais: sepse é uma emergência médica absoluta e cada minuto conta.
Os números impressionam: cerca de 49 milhões de casos por ano no mundo, com aproximadamente 13 milhões de mortes. E o mais alarmante é que boa parte das mortes pode ser evitada com reconhecimento precoce e tratamento adequado, que é relativamente simples e de baixo custo na maioria dos casos.
A sepse é uma resposta desregulada do organismo a uma infecção. Em vez de combater apenas o agente infeccioso, o corpo passa a agredir os próprios órgãos. É como se o sistema de defesa, ao tentar proteger, acabasse se tornando o principal agressor. Quando a sepse evolui, a circulação fica comprometida, a pressão arterial cai e órgãos vitais deixam de receber oxigênio de forma adequada. Esse estágio, conhecido como choque séptico, está associado a alto risco de morte, e o tempo passa a ser determinante.
As novas diretrizes reforçam a importância da identificação precoce. Febre, queda de pressão, respiração acelerada, confusão mental e diminuição da urina são sinais de alerta. Em idosos, muitas vezes, o quadro é ainda mais sutil, podendo se manifestar apenas como prostração ou alteração do comportamento habitual.
O tratamento se apoia em dois pilares que precisam acontecer com rapidez. O primeiro é o início precoce de antibióticos, idealmente na primeira hora após o reconhecimento do quadro. O segundo, igualmente fundamental e ainda pouco valorizado, é a reposição de fluidos (soro) por via venosa. A hidratação venosa adequada, iniciada precocemente e guiada por reavaliação clínica contínua, é essencial para restaurar o fluxo sanguíneo e evitar a progressão. Nos casos mais graves, a pressão não recupera com soro e é necessário um medicamento intravenoso, a norepinefrina. Idealmente o paciente deve receber o tratamento em unidades de terapia intensiva, mas reconhecer a sepse e administrar antibiótico e fluidos na primeira hora deve ser feito onde quer que esteja.
O enfrentamento da sepse, no entanto, não depende apenas da decisão de um só médico. Ele exige organização. Protocolos bem definidos, equipes treinadas e sistemas capazes de reconhecer rapidamente o paciente grave fazem diferença. Modelos estruturados de resposta, como os chamados códigos de sepse, reduzem o tempo até o diagnóstico e o início do tratamento. Onde há organização, há mais chance de sobrevivência.
Como médica intensivista, vejo diariamente o impacto devastador da sepse e o contraste entre os casos que são reconhecidos a tempo e tratados adequadamente e aqueles que têm o diagnóstico e o tratamento negligenciados. A diferença entre esses dois desfechos não está na complexidade da tecnologia, mas na velocidade da ação.
Saber que uma infecção pode evoluir rapidamente, reconhecer sinais de gravidade e buscar atendimento imediato são ações decisivas. Para os profissionais de saúde, a informação tem que se transformar em ação. Precisamos falar mais sobre sepse. Porque, ao contrário do que muitos pensam, não é apenas uma complicação inevitável, é uma morte evitável.
Ludhmila Hajjar - O Globo