Faltando menos de sete meses para as eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abandonou qualquer pretensão de gestão técnica e entrou, segundo seus próprios aliados, no chamado “modo cobrança” — um eufemismo elegante para o que, na prática, é governar com o olho no calendário eleitoral, não no interesse público.
O diagnóstico do próprio Palácio do Planalto é revelador: a comunicação do governo falhou em mostrar o que foi feito. A solução encontrada, porém, não foi comunicar melhor — foi gastar mais. Um pacote de medidas econômicas desponta não como resposta a uma emergência real, mas como resposta a pesquisas de intenção de voto que mostram empate técnico com Flávio Bolsonaro, candidato da oposição.
A contradição é flagrante. Se a inflação está dentro da meta, o desemprego na mínima histórica e o PIB crescendo, por que o governo precisa de um pacote de bondades emergencial? A resposta não está na economia — está nas urnas.
Entre as medidas estudadas estão a redução da conta de luz via empréstimo de R$ 7 bilhões às distribuidoras pelo BNDES e o corte no rotativo do cartão de crédito. Medidas que soam generosas, mas escondem um problema estrutural: segurar tarifas de energia às vésperas de eleições é um truque velho. Bolsonaro fez. Dilma fez. E o resultado, em ambos os casos, foi o mesmo — após as eleições, as contas ficaram ainda mais caras. Quem paga a conta, no fim, é sempre o cidadão.
Não se trata de negar que parte da população sofre com juros altos e endividamento crescente. O problema real existe. Mas tratá-lo como munição eleitoral, com soluções paliativas e de curto prazo, é uma desonestidade política que prejudica justamente os mais vulneráveis — aqueles que precisam de políticas sérias e duradouras, não de alívios temporários calibrados para render votos em outubro.
Governar pensando no dia seguinte à eleição não é responsabilidade — é oportunismo. E o cidadão brasileiro, que já assistiu a esse roteiro antes, merece mais do que bondades com prazo de validade.