O dono do banco Master Daniel Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal (STF) Alexandre de Moraes trocaram mensagens das 7h19 às 20h48 de 17 de novembro de 2025, quando o banqueiro seria preso na primeira fase da Operação Compliance Zero, que apura crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de capitais. Solto com tornozeleira eletrônica 11 dias depois, Vorcaro voltou a ser preso nesta quarta-feira, na terceira fase da ação da Polícia Federal.
Mensagens obtidas pela PF do celular de Vorcaro, apreendido na operação, apontam a proximidade do banqueiro com o ministro do STF. A coluna de Malu Gaspar, do GLOBO, teve acesso aos prints de nove mensagens trocadas entre os dois, via WhatsApp, até cerca de uma hora antes da primeira detenção, em São Paulo. As conversas indicam que Vorcaro prestava contas a Moraes sobre o avanço das negociações para a venda do Master e sugerem que ele falou sobre o inquérito sigiloso que tramitava na Justiça Federal de Brasília e acabou levando à sua prisão.
Nos meses anteriores ao 17 de novembro, Vorcaro passou por negociações frustradas, investigações e crescente preocupação regulatória quanto às operações do Master, enquanto Alexandre de Moraes esteve no centro do debate público pelo atuação do STF nos julgamentos da trama golpista e na condução do inquérito das fake news, ambos sob sua relatoria. Na mesma época em que a PF apertava o cerco contra o executivo e as negociações do Master patinavam, o Supremo concluía os processos contra autoridades acusadas pela tentativa de golpe — na noite da prisão de Vorcaro, aliás, Moraes se reuniu com o chefe do Exército e o ministro da Defesa para tratar da iminente prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros militares.
A crise do Master começa a escalar em 2024, quando o Ministério Público Federal pede para investigar a possível fabricação de carteiras de crédito que apresentavam inconsistências. De lá para cá, a instituição passou de candidata a ser comprada por um banco público a protagonista de uma crise que mobilizou órgãos de controle e gerou tensão política em Brasília.
Segundo interlocutores, o Banco Central (BC) percebeu irregularidades na operação de compra de carteiras já no início de 2024, antes do anúncio da intenção de compra da instituição de Vorcaro pelo Banco de Brasília (BRB). No início de 2025, o BRB anunciou que pretendia comprar 58% do capital do Master por cerca de R$ 2 bilhões. A operação foi apresentada como uma aposta estratégica para ampliar presença nacional, mas rapidamente levantou dúvidas sobre a saúde financeira do Master — especialmente pela elevada captação via CDBs de curto prazo com custos muito acima da média do mercado.
O negócio sofreu uma série de reduções desde o anúncio, a pedido do BC. A versão final contemplava a aquisição de cerca de R$ 24 bilhões em ativos do Master, metade do que foi acertado entre os dois bancos inicialmente. A Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou o negócio do BRB com o Master, mas o Tribunal de Justiça questionou partes do acordo. Ministérios Públicos — tanto o distrital quanto o federal — abriram apurações para avaliar a consistência da operação e possíveis impactos fiscais.
Paralelamente, o Cade deu aval concorrencial, enquanto crescia a pressão política de parlamentares do Centrão em defesa da compra. Mesmo com movimentações de bastidores para viabilizar a transação, a equipe técnica do BC intensificou a análise diante do risco crescente. O volume de captações caras do Master, somado à fragilidade da carteira e ao risco de liquidez, pesou contra o negócio, e a autarquia vetou a operação em setembro.
O veto acendeu alerta ainda maior sobre a real situação da instituição. O Master passou a buscar novos investidores e chegou à proposta de compra pela Fictor Holding Financeira, com o anúncio do aporte de R$ 3 bilhões, em parceria com fundos de investimento dos Emirados Árabes Unidos. Horas antes de ser preso, Vorcaro anunciou o negócio ao mercado. Interlocutores que acompanharam o assunto avaliaram que foi uma tentativa do executivo de criar uma cortina de fumaça para tentar fugir do país antes da operação da PF, o que ele nega, em meio à apuração do suposto esquema de criação e negociação de títulos de crédito falsos.
Sem conseguir demonstrar capacidade de continuar operando, o Banco Master teve a liquidação extrajudicial decretada. Nesta quarta-feira, o BC informou ter identificado indícios de recebimento de vantagens indevidas de dois servidores durante revisão interna dos processos de fiscalização e liquidação da instituição.
Enquanto negociava venda de parte de sua operação para o BRB, o banco estatal de Brasília, contratou para representá-lo judicialmente o escritório Barci de Moraes, onde trabalham a mulher e dois filhos do ministro do Supremo Alexandre de Moraes. Na Operação Compliance Zero, além de executar a ordem de prisão de Vorcaro, a PF também apreendeu celulares, notebooks e documentos, como contratos. Vieram à tona, então, os valores da contratação de Viviane de Barci: R$ 3,6 milhões mensais por 36 meses a partir do início de 2024, conforme revelou a colunista do GLOBO Malu Gaspar. De escopo amplo, o de representar o Master onde for necessário, o documento não especificava os serviços a serem prestados.
Mensagens encontradas no celular Vorcaro também sugeriram que o ex-banqueiro se encontraria com Alexandre de Moraes em abril de 2025. No dia 19 daquele mês, ele escreveu que estava indo encontrar “alexandre moraes aqui perto de casa”. Em resposta, a namorada do banqueiro, Martha Graeff, escreve: “Como assim amor/ Ele está em Campos????/ Ou foi pra te ver?”. Vorcaro, por sua vez, diz que “ele tá passando feriado”. Não é possível saber, pelas mensagens, qual local é “Campos”, citada na mensagem. Uma empresa da mulher e dos filhos do ministro, o Lex Instituto de Estudos Jurídicos, é dona de dois imóveis em Campos do Jordão (SP).
Na tarde desta sexta-feira, Moraes negou ter recebido as mensagens de Daniel Vorcaro no dia da primeira prisão do banqueiro, em novembro de 2025, reveladas pelo GLOBO. Consultada, a defesa de Vorcaro afirmou que não comentaria.
Veja abaixo a cronologia do dia 17 de novembro:
A conversa entre Vorcaro e Moraes começou às 7h19 do dia 17 de novembro de 2025, quando Vorcaro relata a Moraes a operação de venda do Master enquanto ela ocorria. Com crise de liquidez, o banco buscava compradores para seus ativos. O banqueiro relatou a Moraes a tentativa de "antecipar os investidores" e citou a possibilidade de "assinar e anunciar ainda hoje uma parte". A possível concretização da transação o faria, segundo Vorcaro, "ir pra lá tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros".
“bom dia. tudo bem? estou tentando antecipar os investidores aqui e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte. e ai eu irei pra la pra tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros"
Na mesma mensagem, Vorcaro muda de assunto:
"De um outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhe. mas a turma do brb me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. e que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas la. se vazar algo será péssimo, mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo. se tiver alguma novidade, vamos falar [sic].”
O trecho parece fazer referência ao inquérito sigiloso que corria contra o banqueiro na Justiça Federal. Ele finaliza a mensagem pedindo para que os dois se falem "se tiver alguma novidade". Moraes respondeu às 8h16, mas não se sabe o que ele disse, porque o ministro enviou uma mensagem de visualização única.
As mensagens apontam também que Vorcaro tratou diretamente com o jornalista Diego Escosteguy, dono do site O Bastidor, o pagamento de quantias que, de acordo com a PF, serviam para a publicação de informações "de interesse do banqueiro". Três horas depois da resposta de Moraes, às 11h08, o portal de notícias publica a informação de que havia um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília sobre uma fraude bilionária envolvendo a compra do Master pelo BRB, sem mencionar risco de prisão.
Intitulada "BRB-Master sem fim", a nota serviria para "esquentar a informação", num pretexto para que, horas depois, a defesa de Vorcaro entrasse com petição diretamente ao juiz da Vara, Ricardo Leite, contra "medidas cautelares eventualmente requeridas”, que poderiam provocar “impacto relevante” e causar “prejuízo irreversível a todo o conglomerado Master”.
Segundo a PF, logo após a publicação, o jornalista enviou a reportagem para Vorcaro e para o advogado Walfrido Warde. Os investigadores apuraram que o banqueiro obteve a informação a respeito do inquérito sigiloso a partir de um acesso ilegal aos sistemas da própria corporação. Procurado, Escoteguy afirmou que os "valores mencionados referem-se a contratos de patrocínio e publicidade, prática regular no mercado de comunicação".
No início da tarde do dia 17, Vorcaro se reuniu virtualmente com o diretor de fiscalização do Banco Central (BC), Ailton de Aquino, e técnicos como o chefe do departamento de supervisão, Belline Santana, e do adjunto, Paulo Souza. O encontro antecedeu a decretação de liquidação extrajudicial do Banco Master, no dia seguinte, e foi realizado sem a apresentação de documentos com propostas formais de soluções privadas para o conglomerado.
Souza e outro servidor do BC, Belline Santana, foram afastados da autoridade monetária após a PF apontar suspeitas de que eles atuavam como “consultores informais” de Vorcaro, revisando documentos que seriam enviados ao regulador e o alertando sobre investigações internas. Na reunião do dia 17, o banqueiro teria tratado de operações de venda a investidores estrangeiros e citado uma viagem a Dubai para a assinatura com investidores. Àquela altura, o BC já havia identificado a crise de liquidez e indícios de práticas irregulares da instituição financeira.
Se o trecho das mensagens a respeito dos investidores é uma referência clara à compra do Master pelo grupo Fictor, que seria anunciada na tarde daquela terça para a surpresa do mercado financeiro, a parte em que ele fala em “entrar no circuito do processo” é menos explícita, mas guarda conexão com a cronologia dos fatos sob investigação. De acordo com a PF, àquela altura o banqueiro já estava preocupado com os desdobramentos do processo que o levaria para a cadeia.
A prisão de Vorcaro foi determinada pelo juiz às 15h29. Dezoito minutos depois, às 15h47, a defesa de Vorcaro enviou por e-mail à Justiça Federal de Brasília uma petição dirigida especificamente à 10ª Vara Federal e a Ricardo Leite, se posicionando contra eventuais medidas cautelares. A PF apura se houve vazamento da ordem de prisão de Vorcaro — em depoimento, Vorcaro negou ter acessado informações sigilosas e indicou que "saiu uma matéria" sobre o assunto, por isso já sabia.
Às 17h22, Vorcaro e Moraes voltaram a se falar. O dono do Master escreveu para o magistrado: "Fiz uma correria aqui pra tentar salvar. Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação". Moraes não respondeu de imediato. Às 17h24, a compra do Master por holding liderada pela Fictor foi anunciada ao mercado.
De acordo com o aviso, o grupo Fictor pagaria R$ 3 bilhões pelo banco, junto com um consórcio de investidores árabes. Às 17h26, Vorcaro emendou a conversa com o ministro: "Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?".
O ministro do Supremo respondeu às 17h31, por meio de prints do bloco de notas que só podiam ser visualizados uma vez pelo interlocutor.
O CEO do Master voltou a pedir por atualizações de Moraes às 20h04 do dia 17, com uma nota no bloco de notas às 19h58, sempre com o cuidado de não mencionar o assunto que o preocupava: "Alguma novidade?". O magistrado respondeu com duas mensagens em sequência, às 20h21 e 20h23.
Vorcaro escreveu novamente para Moraes às 20h48, no que, segundo o material apreendido e periciado pela PF, seria a última mensagem compartilhada com o ministro antes da prisão.
Pelo conteúdo, depreende-se que ele respondeu a uma pergunta sobre o negócio com a Fictor: "Foi. Seria melhor na sexta junto com os gringos mas foi o que deu pra fazer dentro da situação”. E emendou: “Acho que pode inibir”, sem dizer exatamente o que poderia ser inibido. Encerrando a conversa, Vorcaro comunicou ao ministro: "Amanhã começam as batidas do [André] Esteves [dono do BTG Pactual]. Tô indo assinar com os investidores de fora e estou online".
Dessa vez, segundo os registros do celular do banqueiro, Moraes não respondeu com outra mensagem de visualização única. Reagiu apenas com o emoji de polegar levantado em sinal de aprovação.
Vorcaro jamais decolaria rumo a Malta, e o Master seria liquidado menos de 12 horas depois pelo Banco Central. O banqueiro foi preso no próprio dia 17 de novembro às 22h no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando tentava embarcar em um jato particular para Dubai, com escala em Malta.
Naquele 17 de novembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) encaminhava o fim da tramitação do processo contra Jair Bolsonaro e outros réus da trama golpista. Na noite daquela segunda-feira, foi publicado no Diário da Justiça o acórdão do julgamento que rejeitou o recurso do ex-presidente Jair Bolsonaro. O documento oficializou o resultado do julgamento e resultou na abertura de prazo para a apresentação de novos recursos defensivos, os últimos antes da declaração do trânsito em julgado e do início do cumprimento das penas impostas.
Na mesma noite da prisão de Vorcaro, conforme relatou o colunista do GLOBO Lauro Jardim, Moraes se reuniu com o comandante do Exército, Tomás Paiva, e o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, para tratar da iminente prisão de Bolsonaro e de outros militares condenados. Na conversa, fora da agenda oficial, Paiva argumentou que mandar Bolsonaro para a Complexo Penitenciário da Papuda talvez fosse excessivo para um ex-presidente e ofereceu possibilidades em instalações militares no país.
Bolsonaro acabou preso preventivamente no sábado seguinte, por determinação de Moraes, depois de o ex-presidente tentar violar a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda. O ministro do STF considerou haver risco de fuga.
O Globo