A informação de que o Itamaraty levou aos Estados Unidos a preocupação em evitar que PCC e Comando Vermelho sejam classificados como Organizações Terroristas Estrangeiras joga luz sobre uma escolha diplomática delicada e politicamente explosiva. Segundo fontes ouvidas pela GloboNews, o chanceler Mauro Vieira tratou do tema em conversa com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, no mesmo contexto em que discutiu a visita de Lula a Washington, ainda sem data definida.
O argumento atribuído a diplomatas é o receio de que a designação abra margem para sanções mais duras e, sobretudo, para justificar operações unilaterais de Washington na região, como o governo Trump vem sinalizando ao incluir cartéis latino-americanos em listas de “narcoterrorismo”. É uma preocupação soberana: nenhum país quer ver precedente para ação extraterritorial armada em seu entorno, com impacto em fronteiras, fluxos financeiros e política interna.
O problema é que, ao priorizar esse tema na mesa com os EUA, o governo escolhe uma agenda que comunica mal com a sociedade. Para a opinião pública, a mensagem que fica é simples e devastadora: por que gastar energia diplomática para impedir que criminosos sejam rotulados com máxima gravidade, em vez de liderar o movimento para asfixiar financeiramente essas organizações e ampliar cooperação internacional contra o crime? Mesmo que a intenção seja evitar ingerência, a forma como o assunto aparece reforça a narrativa de leniência com facções.
Há também um risco prático: se a justificativa brasileira for apenas “não chamem de terroristas”, sem contrapartidas robustas e verificáveis de combate ao PCC e ao CV, o país perde a chance de pautar a conversa com propostas mais inteligentes. O governo poderia condicionar qualquer cooperação a regras claras, participação brasileira, respeito a tratados, e foco em inteligência, rastreio de ativos e lavagem de dinheiro — e não em aventuras militares.
No fim, a diplomacia existe para defender interesses nacionais, mas também para sustentar legitimidade interna. Ao tentar evitar um rótulo que os EUA discutem aplicar a facções, o Planalto e o Itamaraty precisam explicar com transparência quais salvaguardas buscam e quais medidas endurecem, de fato, contra o crime organizado. Sem isso, a iniciativa se torna um prato cheio para a leitura mais corrosiva: a de que o governo parece mais preocupado com o enquadramento formal do PCC e do CV do que com a urgência de enfrentá-los.