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Opinião do Estadão: A culpa não é de Sidônio

Opinião do Estadão: A culpa não é de Sidônio

A reprimenda pública feita pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, ao colega da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, diz mais sobre o desespero de um governo premido pela impopularidade do que sobre a qualidade do trabalho de seu marqueteiro. A seis meses das eleições, a inquietação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o avanço do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto é compreensível. Mas o diagnóstico de seu “xerife” no Palácio do Planalto está errado. Não é a falta de comunicação que explica as agruras do incumbente em campanha pela reeleição. É a falta de rumo do chefe de governo.

Ao sugerir que a Secom deveria “comparar” os governos Lula e Jair Bolsonaro para evidenciar os supostos êxitos da atual gestão, Costa, no melhor cenário, revelou absoluta ignorância sobre a legislação que rege a comunicação pública, que não pode ser instrumentalizada para fins político-eleitorais. Trata-se de uma vedação explícita, que visa a resguardar o melhor interesse público e impedir o uso da máquina estatal como instrumento de campanha. É um limite republicano que jamais pode ser ignorado. Que o tenha sido por ninguém menos que o chefe da Casa Civil é improvável, o que leva à inevitável inferência de que Rui Costa parece preferir sobrepor o interesse eleitoral do chefe ao ordenamento jurídico.

Ainda assim, mesmo que tal barreira legal não existisse, a cobrança permaneceria injusta. A ideia de que uma propaganda mais eficiente seria capaz de reverter a percepção negativa que a maioria dos eleitores tem sobre o governo parte de uma premissa frágil, qual seja, a de que há, de fato, um conjunto consistente de realizações e um projeto claro de país a serem comunicados. Não há. Eis o busílis. Lula chega à reta final do mandato sem oferecer à Nação um horizonte nítido, em que as prioridades estejam claras. Decisões são tomadas por espasmos, ao sabor das circunstâncias, dos sentimentos fugazes das mídias sociais e, muitas vezes, recorrendo-se ao velho arsenal populista do PT.

Atribuir à comunicação a responsabilidade pelo desgaste político de Lula é uma forma fácil – e injusta – de evitar enfrentar o problema essencial: o presidente não sabe para que quer mais quatro anos de mandato, a não ser para satisfazer seu desejo pessoal por poder. Não há marqueteiro capaz de suprir a ausência de estratégia e formulação programática. O chefe da Secom, um publicitário experiente, pode até calibrar discursos, organizar publicações entre os ministérios e tentar conter danos – como fez, por exemplo, ao evitar que a primeira-dama Janja da Silva desfilasse pela Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí e ampliasse ainda mais o vexame que foi aquele ridículo culto à personalidade de Lula. Mas Sidônio não é mágico. Não pode criar substância onde isso não existe.

Convém reconhecer, nesse sentido, que houve melhora em relação à gestão anterior da Secom, sob o petista Paulo Pimenta. Ainda que persistam não poucos problemas, o trabalho da Secom hoje é bem menos amador. Isso não significa eficiência nem tampouco respeito irrestrito ao princípio da impessoalidade. A tentação dos petistas em usar órgãos de governo como extensões do palanque continua forte como sempre foi. Mas não é a comunicação, repita-se, que explica a curva descendente de Lula nas pesquisas.

Lula governa sem planejamento estratégico, movido mais pela necessidade de manter-se no poder – por apego, vaidade ou ambos – do que por um projeto de governo estruturado para o País. Por isso, quando tudo vai mal, dá vazão ao velho cacoete de buscar causas externas para suas contrariedades. Se as famílias estão endividadas, o problema é o comportamento perdulário dos brasileiros. Se há falhas administrativas, invoca-se a “herança maldita”. Se a popularidade cai, responsabiliza-se a imprensa e a comunicação oficial. Lula, o demiurgo, jamais falha. Foi isso o que Rui Costa disse, sem dizê-lo abertamente.

Sidônio não faz milagres. E não deveria ser transformado em bode expiatório de um problema que está acima dele. Comunicação pode potencializar acertos, mas não supre a falta deles.

Opinião do Estadão

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