A rejeição do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal na noite de 29 de abril não foi um acidente político. Segundo a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, o resultado foi construído em um acordo de bastidores que reuniu três figuras improváveis na mesma mesa: o presidente do Senado Davi Alcolumbre (União-AP), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ministro do STF Alexandre de Moraes. O pacto, descrito como um clássico "toma lá dá cá" de Brasília, envolveu três moedas de troca: a derrubada de Messias, a derrubada do veto ao PL da Dosimetria e o enterro da CPI do Banco Master.
De acordo com seis fontes ouvidas por Malu Gaspar, Moraes atuou diretamente nos bastidores para barrar a indicação de Lula. O ministro, que é relator do inquérito das fake news e da trama golpista, teria se reunido com integrantes do STF, do Congresso e agentes do meio político e jurídico para reforçar a campanha pelo "não". A estratégia incluiu o envio de emissários com recados a senadores que tinham processos no Supremo ou alguma ligação com aliados de Moraes no Congresso. A motivação seria pragmática: Moraes já teria maioria favorável no STF no caso do Banco Master e não precisaria de Messias na Corte, cuja chegada poderia inclusive alterar o equilíbrio de forças em outros julgamentos.
Do lado bolsonarista, o cálculo foi igualmente frio. Fontes do PL indicam que o acordo foi firmado entre Alcolumbre e o senador Jorge Seif (PL-SC), com o aval de Flávio Bolsonaro. Em troca de votos suficientes para derrubar Messias no plenário, a oposição se comprometeu a abandonar a pressão pela instalação da CPI do Banco Master. A CPI já tinha assinaturas suficientes para ser criada, mas traria às manchetes, em plena campanha eleitoral, as vísceras da relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e figuras diretamente ligadas a Flávio Bolsonaro e Alcolumbre. Entre os pontos sensíveis estavam os investimentos de cerca de R$ 400 milhões da Amprev em letras financeiras emitidas pelo Banco Master, além de conexões financeiras com o Centrão e o bolsonarismo.
O sinal de que tudo estava costurado veio cedo. Segundo relato da jornalista, um aliado de Flávio Bolsonaro comunicou a vitória contra Messias às 11h da manhã do dia 29, horas antes da votação no plenário do Senado. O nome do advogado-geral da União havia sido aprovado na Comissão de Constituição e Justiça por maioria apertada, mas o acordo de bastidores já garantia a derrota no plenário. Foi a primeira vez desde 1894 que o Senado rejeitou a indicação de um presidente da República para o STF.
No dia seguinte, 30 de abril, a segunda parte do pacto se concretizou. A sessão do Congresso Nacional teve pauta única: a derrubada do veto de Lula ao PL da Dosimetria, que reduz as penas de Bolsonaro e dos condenados pelo 8 de Janeiro. A CPI do Master, que poderia ser instalada naquela mesma sessão, sequer foi mencionada. O deputado Carlos Jordy (PL-RJ), responsável pelo requerimento da CPI, criticou a manobra publicamente, afirmando que ela contrariava o regimento, mas reconheceu que não teria força para reverter a decisão. Até o deputado Zé Trovão (PL-SC), que discursou cobrando a instalação da comissão, admitiu que o pedido não prosperaria.
O acordão expõe um paradoxo que promete alimentar o debate político até outubro. A oposição que se apresenta como guardiã da moralidade contra o establishment abriu mão de investigar um dos maiores escândalos financeiros do país em troca de benefícios diretos para seu líder preso. O governo que prometia transparência viu sua indicação ao STF ser abatida por uma aliança entre seu principal adversário e o ministro mais controverso da Corte. E o presidente do Senado, que deveria arbitrar os conflitos entre os poderes, operou como fiador de um acordo que beneficia todas as partes envolvidas, menos o interesse público de apurar a verdade sobre o Banco Master.