A derrota histórica de Jorge Messias no Senado não provocou apenas uma crise de confiança entre o Planalto e seu líder na Casa. Ela detonou um efeito colateral que Jaques Wagner (PT-BA) certamente não previa: agora é o próprio PT que pressiona pela instalação da CPMI do Banco Master, a mesma comissão que o senador baiano tentou por meses evitar.
Na sessão que derrubou o veto ao PL da Dosimetria, um dia após o fiasco de Messias, a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) subiu à tribuna e fez uma cobrança pública direta ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre: "Instale a CPMI do Master." O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) reforçou o coro. A base governista acusa um "acordão" entre Alcolumbre, Centrão e oposição: a moeda de troca para derrubar Messias teria sido justamente o compromisso de que a CPMI do Master não seria instalada, conforme reportagem do Correio Braziliense.
A ironia é que uma CPMI do Master atinge em cheio o PT da Bahia, o reduto político de Wagner. Investigações da Polícia Federal e da CPMI do INSS já apontam governos petistas da Bahia como o berço político e operacional do escândalo. O CredCesta, cartão de crédito consignado criado em 2007 pelo governo estadual e privatizado na gestão de Rui Costa, hoje ministro da Casa Civil, é peça central das apurações. A plataforma foi transformada em instrumento do Banco Master para captar recursos de servidores públicos, e há suspeitas de que decretos estaduais tenham restringido a troca de operadora para favorecer a instituição de Daniel Vorcaro.
Wagner está no epicentro. Uma empresa de sua nora, a BK Financeira, sediada em Salvador, recebeu R$ 11 milhões do Banco Master para prospectar operações de crédito consignado, conforme revelou a coluna de Milena Teixeira, no Metrópoles. Reportagens do O Globo mostram que os pagamentos do banco alcançaram políticos de diferentes espectros na Bahia, mas a conexão petista é a mais extensa: aliados de Wagner teriam indicado ex-ministros de governos do PT para consultorias milionárias no banco, incluindo o ex-ministro Guido Mantega, contratado como consultor por R$ 1 milhão ao mês.
Até março, Wagner conseguia blindar a Bahia. Em entrevista à CNN, classificou como "leviana" a tentativa de associá-lo ao caso e disse que "não existe nenhum relatório da PF envolvendo a Bahia com o episódio do Master". Mais do que isso, os grupos de Wagner e de ACM Neto (União), pré-candidato ao governo baiano que também recebeu R$ 3,6 milhões do Master, haviam fechado um pacto de silêncio para isolar o escândalo do debate eleitoral, segundo o O Globo.
A traição percebida na derrota de Messias dinamitou essa blindagem. Ao chamar Wagner de "traíra" e expor a suspeita de que o líder operou junto com Alcolumbre para evitar o fortalecimento de André Mendonça, relator do caso Master no STF, Messias e seus aliados colocaram holofotes justamente na conexão que Wagner mais queria esconder. Agora, parlamentares petistas de outros estados enxergam na CPMI do Master uma ferramenta de dupla utilidade: atacar Alcolumbre pelo que consideram sabotagem e, ao mesmo tempo, forçar uma prestação de contas interna sobre o que o PT da Bahia sabia e ganhava com o banco de Vorcaro.
O cálculo é arriscado. Se a CPMI for instalada, Wagner terá de explicar publicamente o que sempre negou nos bastidores. E em ano eleitoral, com o governador Jerônimo Rodrigues (PT) enfrentando ACM Neto em outubro e o próprio Wagner buscando a reeleição ao Senado, a exposição pode ser devastadora para a hegemonia petista na Bahia. O que era uma disputa de bastidores entre Messias e Wagner virou uma crise que pode reconfigurar a política baiana e fragilizar Lula no Nordeste, seu principal reduto eleitoral.