Para quem acompanha a política brasileira com atenção, a cena desta semana tem um sabor de déjà vu. O Intercept Brasil publica material obtido de forma não esclarecida, com conteúdo explosivo contra uma liderança da direita, em momento politicamente decisivo.
A grande imprensa (como Globo, Record, SBT, CNN Brasil, Metrópoles) engolem mosca, são "furadas" pelo pequeno portal, e se limita apenas a amplificar o material divulgado. O debate público se desloca do "como foi obtido" para "o que foi dito". E a pergunta sobre a legalidade da obtenção do material desaparece na espuma dos dias.
Aconteceu em 2019. Está acontecendo de novo em 2026. Para quem já esqueceu, o Blog relembra: em 9 de junho de 2019, o Intercept Brasil, fundado pelo jornalista americano Glenn Greenwald, começou a publicar a série "As Mensagens Secretas da Lava Jato". O material consistia em conversas do Telegram entre o então juiz Sergio Moro e procuradores da Operação Lava Jato, em especial Deltan Dallagnol.
O conteúdo mostrava interações entre juiz e acusação que, segundo críticos, violavam a imparcialidade judicial. O impacto foi sísmico: deslegitimou a Lava Jato, enfraqueceu Moro (que era ministro da Justiça de Bolsonaro) e forneceu munição jurídica para a anulação de condenações, incluindo as de Lula — que voltou a ser elegível e venceu as eleições de 2022.
Walter Delgatti: o hacker que virou celebridade
A fonte do material foi Walter Delgatti Neto, um hacker de Araraquara (SP) com extenso histórico criminal — 46 processos, segundo levantamento de Moro, incluindo estelionato contra 44 clientes do banco Itaú.
Delgatti admitiu à PF que invadiu contas de Telegram de autoridades da Lava Jato e repassou o material ao Intercept Brasil sem cobrar. Foi condenado a 20 anos e 1 mês de prisão pela Operação Spoofing.
O episódio revelou o modus operandi: material obtido por meios criminosos, publicado por um veículo de imprensa que se protege atrás do sigilo de fonte, com consequências políticas devastadoras para alvos da direita.
2026: o mesmo roteiro, atores diferentes?
Sete anos depois, o Intercept Brasil volta ao centro de um escândalo de vazamento. E que chama atenção não é apenas a coincidência — é a consistência da direção do ataque.
O Intercept Brasil nunca publicou um grande vazamento que tenha prejudicado de forma significativa lideranças da esquerda. Considerando que o celular de Vorcaro contém conversas potencialmente comprometedoras com figuras como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Ciro Nogueira, Hugo Motta e até menções a Lula e José Dirceu, a escolha editorial do veículo levanta questionamentos legítimos.
Vale lembrar: o próprio Moraes considerou que o vazamento dos dados de Vorcaro pela CPMI do INSS foi um "desrespeito" — mas esse mesmo material, quando chega ao Intercept e é usado contra Flávio Bolsonaro, não gera a mesma indignação institucional.
Não se trata de blindar Flávio Bolsonaro ou qualquer político. Se houve irregularidade, que se investigue e se puna nos termos da lei. Mas a lei também deve ser aplicada a quem vaza, a quem hackeia e a quem publica material obtido por meios criminosos com o objetivo de interferir em eleições.
Walter Delgatti pagou o preço com 20 anos de condenação. Quem será o Delgatti de 2026?