Em fevereiro deste ano, centenas de pessoas foram às ruas de Natal para protestar pela morte do cão Orelha, em Florianópolis. O caso estava fervilhando nas redes sociais e os natalenses levaram cartazes e gritos de ordem. A comoção genuína tomou conta do ato. Na mesma semana, a 30 quilômetros dali, criminosos invadiram uma casa em São José de Mipibu, na Grande Natal, e executaram três pessoas de uma mesma família. Entre as vítimas, Maria Hadassa Policarpo Silva, de apenas 4 anos, atingida com um tiro na testa.
Maria Hadassa ainda foi socorrida com vida, mas não resistiu na UPA do município. Não houve protesto. Não houve hashtag viral. Não houve influenciador gravando vídeo emocionado pedindo justiça por Hadassa. Não houve governador se pronunciando. O nome da menina de 4 anos não virou trending topic, não batizou hospital, não estampou cartaz em passeata de nenhuma capital brasileira.
A morte do cachorro em Santa Catarina mobilizou o país inteiro. O caso foi investigado e reinvestigado. Os jovens acusados precocemente (até obrigados a deixar a cidade onde moravam) foram inocentados por completa falta de provas. A Polícia Civil não viu crime, o Ministério Público não viu crime, o Judiciário não viu crime. O cão Orelha morreu de infecção.
A decisão pelo arquivamento da investigação, inclusive, ainda enfrenta resistências e até protestos em todo o Brasil. Muita gente acredita que está havendo "encobertamento" dos criminosos.
Sem pressão social, o episódio de Maria Hadassa teve uma investigação bem mais discreta. Passado o mesmo período, não se sabe ao certo nem o nome dos assassinos - e se eles ainda estão vivos. O que se sabe é que ela não foi a única criança assassinada este ano no Rio Grande do Norte.