O Ministério Público de Santa Catarina pediu o arquivamento das investigações sobre a morte do cão Orelha, ocorrida em janeiro de 2026 na Praia Brava, em Florianópolis. Após analisar quase dois mil arquivos e produzir um relatório de 170 páginas, a conclusão é devastadora: não há provas de que o animal tenha sido agredido. Os adolescentes acusados sequer estiveram no mesmo local que o cão no horário da suposta agressão.
A cronologia que sustentava toda a acusação foi construída a partir de vídeos com timestamps incorretos. A perícia veterinária apontou que Orelha sofria de uma infecção óssea crônica grave na face esquerda, provável causa real da morte. A exumação não encontrou fraturas nem lesões compatíveis com ação humana.
Mesmo assim, quatro adolescentes foram apontados como culpados pela internet, pela imprensa e até pelo governador de Santa Catarina. Suas famílias receberam ameaças de morte, tiveram dados expostos e foram submetidas a um linchamento virtual que durou semanas. Um deles chegou a ser indiciado e teve pedido de internação solicitado pela Polícia Civil.
O paralelo com a Escola Base, de 1994, é inevitável. Naquela época, os donos de uma escola infantil em São Paulo foram acusados falsamente de abuso sexual, destruídos pela imprensa e pela opinião pública, e posteriormente inocentados. O inquérito foi arquivado por falta de provas. A diferença é que, em 2026, as redes sociais multiplicaram a velocidade e o alcance da destruição.
Presunção de inocência ignorada, checagem de fontes inexistente, condenação pública antes da investigação. Os ingredientes são os mesmos. O caso Orelha tem tudo para se tornar o exemplo definitivo de irresponsabilidade jornalística e midiática da era digital, estudado nas faculdades de comunicação por décadas.
O MPSC informou que está apurando a disseminação de conteúdos falsos sobre o caso. Mas nenhuma apuração tardia devolve a reputação que foi destruída. Estudantes de Jornalismo, anotem esse nome: caso Orelha. Vocês vão ouvir falar dele muitas vezes.