O pré-candidato ao governo do Ceará, Ciro Gomes (PSDB), operou uma guinada discursiva significativa entre abril e maio de 2026. Conhecido nacionalmente por um repertório centrado em política econômica — juros, endividamento das famílias, reindustrialização e desenvolvimento nacional —, o ex-ministro da Fazenda e da Integração Nacional recalibrou sua comunicação e elegeu a segurança pública como o eixo central da campanha ao Palácio da Abolição.
Essa mudança foi destaque no Jornal 96 (asissta acima). O "novo" Ciro ficou evidente no lançamento oficial da pré-candidatura, realizado no último sábado (16), no bairro Conjunto Ceará, em Fortaleza, onde a palavra "facções" dominou o discurso, enquanto termos como "PIB", "inflação" e "taxa de juros" — habituais em suas falas — praticamente desapareceram.
A transição não é acidental. Em 25 de abril, durante evento do PSDB em São Paulo, quando ainda cogitava disputar a Presidência, Ciro fez um discurso marcadamente nacional: criticou a política econômica do governo Lula, apontou o endividamento recorde das famílias e empresas brasileiras, questionou os juros elevados e classificou o momento como um dos piores da história recente do país. Três semanas depois, ao confirmar que ficaria no Ceará, o tom mudou radicalmente.
"Hoje o povo do Ceará vive falando baixo, vive capiongo, olhando para o lado, com medo, aterrorizado, humilhado pelas facções criminosas", declarou no ato de lançamento, acrescentando que há uma "omissão quase absoluta" das autoridades estaduais no enfrentamento ao crime. Até mesmo nas inserções de TV veiculadas na véspera do evento, como apontou o colunista Henrique Araújo, do jornal O Povo, a segurança já era o "cartão de visitas" do discurso que Ciro pretende adotar na campanha.
A estratégia tem lógica eleitoral sólida. Pesquisa Quaest divulgada em 30 de abril revelou que 46% dos eleitores cearenses consideram a violência o maior problema do estado — muito à frente de saúde, educação e emprego. Ciro, que governou o Ceará entre 1991 e 1994, aposta que a pauta da segurança é o flanco mais vulnerável do grupo que comanda o estado há uma década, encabeçado pelo senador Camilo Santana (PT) e pelo governador Elmano de Freitas (PT).
No discurso de lançamento, o tucano disparou um dado-símbolo: "Sabe quantos delegados de polícia foram contratados nos últimos dez anos por esses frouxos que governam o Ceará? Nenhum!" A frase, repetida por aliados como o ex-senador Tasso Jereissati — que afirmou que "o estado do Ceará pertence às facções" —, busca colar no adversário a imagem de fragilidade e omissão diante do crime organizado.
A composição de alianças reforça o novo posicionamento. Ao lado de Ciro no palanque estavam o ex-prefeito Roberto Cláudio (União Brasil), anunciado como pré-candidato a vice, o ex-deputado Capitão Wagner (União Brasil), cotado para o Senado, e o deputado federal André Fernandes (PL), nome ligado ao bolsonarismo.
A presença de figuras identificadas com a agenda da "lei e ordem" não é cosmética: sinaliza que a campanha de Ciro vai ocupar um espaço discursivo à direita na segurança, apostando que o eleitor cearense quer punho firme contra as facções. A analista Monalisa Lima Torres, pesquisadora do Observatório de Política do Nordeste da UFC, avalia que Ciro "conseguiu articular uma base no campo da direita" que torna a eleição cearense uma das mais acirradas do país em 2026.
Do outro lado, o governador Elmano de Freitas já reagiu. Em declaração no início de abril, classificou as falas de Ciro como "muita conversa fiada" e "bravata": "Nunca vi nada de concreto do Ciro na segurança pública. Aqui no Ceará, aumentamos a inteligência, aumentamos a presença da polícia e botamos na cadeia mais de 100 chefes de facções."
O embate define o eixo da campanha: enquanto Ciro mira o sentimento de insegurança da população, o governo tenta responder com números e resultados operacionais. Com Camilo Santana liderando as pesquisas com 45% das intenções de voto contra 36,8% de Ciro, segundo o Paraná Pesquisas, a aposta no discurso de segurança é, para o tucano, a principal ferramenta para encurtar a distância e redefinir os termos do debate eleitoral no Ceará.