Não é fácil fazer parte da sociedade de Natal. Entrar, permanecer e não passar vergonha já virou esporte olímpico. O povo vive numa mistura de Big Brother com desfile da Chanel parcelado em 24 vezes no cartão.
Na Hilife, a academia dos ungidos e perfumados, um bacana chegou desfilando. Camisa dry fit importada, tênis que custa um Celta usado e cara de quem toma café da manhã em Paris. Não deu nem tempo de aquecer no transport. Um oficial de justiça apareceu para buscar o carro dele no estacionamento. Excesso de parcelas atrasadas. O homem saiu da academia mais magro. Perdeu o carro e quase a dignidade.
Em outro núcleo da elite potiguar, um grupo de 12 amigos descobriu que amizade em Natal tem classe de embarque. Dez foram convidados para uma festa. Só um casal ficou de fora. O detalhe mais cruel: o convite foi comentado dentro do próprio grupo. Uma humilhação gourmet. Dizem que a ordem veio de uma autoridade momentânea da relação social natalense. A famosa síndrome do rei do camarote financiado.
E na BT Tirol a luta segue intensa. Uma dondoca reclamou do perfume da personal. Disse que era doce demais. Talvez estivesse em dieta low carb olfativa. Em Natal até fragrância virou disputa social. Daqui a pouco vão lançar perfume sem glúten, sem lactose e com notas de humildade inexistente.
A verdade é que viver em Natal exige preparo físico, emocional e limite alto no cartão. Porque o maior exercício da cidade não é musculação. É sustentar personagem.