O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se pronunciou pela primeira vez nesta sexta-feira (29) sobre a decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Em discurso durante evento da Petrobras em Laranjeiras (SE), o petista disse estar "muito triste" com a medida anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio e reconheceu que as facções são terroristas para o povo brasileiro, mas fez questão de diferenciar: "Eles não são os terroristas que o Trump quer. O Trump quer o Osama bin Laden. E nós queremos os terroristas brasileiros que estão nos Estados Unidos."
Lula atacou diretamente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se reuniu com Trump e Rubio na Casa Branca dias antes do anúncio e reivindicou ter pedido a classificação. "Um senador brasileiro foi lá pedir para os americanos virem aqui intervir no Brasil. Isso é traição à pátria", disparou o presidente, acrescentando: "Nós não aceitamos ser tratados como moleque. O Brasil não pode ser tratado como se fosse uma República de Banana."
O presidente revelou que, durante visita a Washington três semanas atrás, entregou a Trump documentos sobre criminosos brasileiros foragidos em solo americano e sobre o fluxo de armas e munições contrabandeadas dos EUA para as facções. "Quer combater o crime organizado? Vamos combater. Mas comece entregando os criminosos que estão aí e parando as armas que saem de lá para cá", cobrou.
O Palácio do Planalto divulgou nota oficial alertando que medidas unilaterais dos EUA podem prejudicar o compartilhamento de informações policiais entre os dois países e afetar sistemas financeiros nacionais, incluindo o PIX. Lula também determinou ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, um levantamento dos possíveis impactos econômicos da designação, que entra em vigor no dia 5 de junho e coloca as facções brasileiras na mesma lista de Al-Qaeda, Hamas e Estado Islâmico.
A indignação do presidente, porém, esbarra numa contradição que seu governo não explicou: o PL 3.283/2021, do senador potiguar Styvenson Valentim, que equipara atos de facções a terrorismo dentro da legislação brasileira, foi aprovado no Senado em 2023, mas permanece engavetado na Câmara há mais de dois anos sem qualquer esforço do Planalto para votá-lo. Se aprovado, o projeto daria ao Brasil instrumentos próprios para enfrentar as facções com rigor, sem depender de Washington e sem abrir brecha para intervenção estrangeira.