Segundo análise da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, o senador Flávio Bolsonaro (PL) conseguiu, com a decisão do governo Trump de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, mais do que uma vitória política — armou uma verdadeira armadilha eleitoral para o presidente Lula. E o timing não poderia ser mais conveniente para o pré-candidato.
O movimento chegou no momento exato em que Flávio amargava duas semanas de desgaste por conta do caso "Dark Horse" — a nebulosa negociação de R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, do Banco Master, para um filme sobre Jair Bolsonaro. A ofensiva americana, ainda segundo a coluna, deu fôlego ao senador e desviou os holofotes de um episódio que vinha sangrando sua imagem.
O calcanhar de Aquiles da esquerda
A jogada explora justamente o ponto mais frágil do campo governista. Conforme aponta Malu Gaspar, citando a pesquisa Genial/Quaest de 13 de maio, a violência é o tema que mais preocupa os eleitores: 31% das menções, muito à frente de corrupção (18%), problemas sociais (15%) e economia (12%). Segurança pública sempre foi terreno minado para a esquerda, e Flávio soube ocupar o vácuo com precisão cirúrgica.
Logo após o anúncio do Departamento de Estado, o senador publicou um vídeo afirmando ter feito, em uma única visita à Casa Branca, "mais pelo Brasil e pela segurança dos brasileiros do que o PT e o Lula em seus 17 anos de mandato". A narrativa é simples e eficaz — e coloca o governo na defensiva.
O dilema de Lula: qualquer reação soa oportunista
O constrangimento para o Planalto é evidente. Há apenas 20 dias, Lula esteve com Trump e entregou um documento argumentando contra a medida. Agora, como será obrigado a se posicionar contra a classificação, alimenta o velho discurso bolsonarista de que o petista "defende bandido" — exatamente o que a coluna do O Globo identifica como o coração da armadilha.
E aqui está o xeque-mate apontado por Malu Gaspar: mesmo as medidas que o governo já vinha costurando — a Lei Antifacção, a PEC da Segurança Pública e a promessa de recriar o Ministério da Segurança — agora soarão como resposta casuística à ofensiva de Flávio e à caneta de Marco Rubio. Ressuscitar uma promessa de 2022 às vésperas da eleição será difícil de vender como coincidência.
Faca de dois gumes para a própria direita
A coluna, em sua leitura mais equilibrada, alerta que a celebração bolsonarista pode respingar. No campo econômico, a Faria Lima e os grandes bancos já estudam os impactos da nova política americana sobre os negócios brasileiros — e um efeito rebote, nos moldes do tarifaço, não está descartado.
Há ainda o flanco político-policial. Como lembra Malu Gaspar, o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, inicialmente cotado como candidato da direita ao governo do Rio, está preso sob suspeita de envolvimento com o Comando Vermelho. Na gestão de Cláudio Castro (PL), ex-secretários também são investigados por proximidade com a facção. Ou seja: a bandeira da segurança, brandida com tanto entusiasmo, pode acabar ferindo quem a ergueu.