Enquanto o país inteiro acompanha o caso do Banco Master — que representava apenas 0,5% do sistema financeiro nacional —, um escândalo infinitamente maior passa quase incólume pelos noticiários. O Itaú, maior banco da América Latina e único brasileiro entre as 500 maiores marcas globais, admitiu em acordo com o Ministério Público de Minas Gerais ter feito cobranças indevidas em cartões de crédito por 14 anos. Como bem definiu o comentarista Gustavo Negreiros, não há eufemismo que segure a palavra exata: "Isso é roubo. Agora isso é coisa de ladrão."
O método: centavos que viram bilhões
A engenhosidade do esquema está na sua sutileza. Segundo a ação do MP-MG, o banco incluía seguros e serviços não contratados nas faturas mensais, com nomes genéricos para dificultar a identificação. O cliente, diante de R$ 1,50, R$ 2,50 por mês, simplesmente não vai à luta — não enfrenta o calvário do "aperte zero, aperte um, digite o CPF, o nome da sua mãe".
E é aí que mora a perversidade matemática. Negreiros foi cirúrgico ao apontar que não precisa ser muito por cliente. Multiplique R$ 2 por milhões de correntistas, ao longo de 14 anos, e o resultado é uma das maiores transferências silenciosas de renda do consumidor para o caixa de um banco na história recente. Foram bilhões de reais. O MP, segundo o próprio comentarista, classifica a prática como desonestidade e má-fé.
O acordo que premia o ladrão
Mas o capítulo mais revoltante vem agora. Mesmo admitindo o ilícito, o Itaú impôs regras que devem impedir a maioria dos clientes de receber o dinheiro de volta. Só terá direito ao ressarcimento quem registrou reclamação formal até dezembro de 2025 e ainda conseguir provar que não contratou o serviço.
Traduzindo a aberração: quem foi lesado por anos sem perceber — exatamente o objetivo do esquema — fica sem nada. E ainda precisa provar que foi roubado. Como ironizou Negreiros, o slogan "feito para você" ganha um complemento óbvio: "feito para você se.". O recado é desolador — o crime compensa. O Itaú embolsa a diferença de quem não reclamou.
A pergunta que ninguém faz: cadê a punição?
Negreiros traçou um paralelo que escancara a hipocrisia do sistema. Um açougue que adultera a balança é fechado. Um posto cuja bomba não condiz com o tanque é interditado. "Todo mundo que age com método ilícito é punido de alguma coisa." Então fica a pergunta: qual será a punição do Itaú?
O esquema, segundo a investigação citada, atingia 133 tipos de cartões — incluindo os vinculados a gigantes como Magazine Luiza, Walmart, Sam's Club, Extra, Ponto Frio, Fiat, Volkswagen, Vivo e Tam. Ou seja, não foram só os correntistas diretos. Foi um país inteiro de consumidores.
O silêncio comprado: por que a imprensa não fala?
E aqui chegamos ao ponto mais incômodo levantado por Negreiros. Por que o Master ocupa todas as manchetes e o Itaú, não? A resposta é desconfortável: o Itaú é o maior anunciante do país. Patrocina a CBF, banca os principais telejornais e é dono — via família Moreira Salles — até de revistas respeitadas como a Piauí.
Negreiros relatou ter buscado o caso na seção de notícias do Google: na home dos grandes portais, só o Metrópoles trazia o assunto em destaque. Se o Master é o "escândalo do INSS do setor privado", o Itaú seria, nas palavras dele, "o Banco Master dos bancos" — só que blindado pelo próprio tamanho.
O Brasil esquizofrênico que premia o infrator
O retrato final é o de um país que perdeu a noção de proporção. No dia em que o maior banco da América Latina admitiu lesar clientes por 14 anos, suas ações não despencaram — subiram 0,10%. Em qualquer mercado sério, a notícia derrubaria os papéis. Aqui, o investidor aplaude.
A lição é amarga, mas necessária: o tamanho do poder importa. O Master, com seus 0,5%, é debulhado em praça pública. O Itaú, gigante, segue intocado. E o cidadão comum — aquele que migrou das fintechs para um "banco de verdade" justamente em busca de segurança — descobre que foi lesado pela própria instituição que escolheu para se proteger.
No fim, o escândalo silencioso do Itaú expõe algo maior do que cobranças indevidas: expõe um sistema em que justiça, imprensa e mercado parecem operar com duas balanças — uma para os pequenos, outra para os poderosos. E enquanto for assim, o "feito para você" continuará valendo apenas para quem está do outro lado do balcão.