Quando o Desenrola Brasil voltou ao centro da agenda econômica, a narrativa dominante foi clara: aliviar dívidas, reativar consumo e destravar a economia. E, de fato, o programa oferece condições agressivas, com descontos relevantes e parcelamentos longos para milhões de brasileiros. Mas, para o empresário, o impacto não é linear, óbvio como toda jornada que um gestor sabe bem. O programa combina oportunidade e risco no mesmo movimento. O que parece uma solução para o consumidor pode, na prática, redesenhar o risco dentro das empresas.
Do lado positivo, o efeito mais imediato é a reativação de consumo. Quando consumidores deixam a inadimplência, voltam a ter acesso a crédito e capacidade de compra, ampliando a base ativa de clientes. Isso tende a beneficiar setores como varejo, serviços e educação, principalmente em tickets médios mais baixos.
Para muitas empresas, isso significa aumento de fluxo de caixa e melhora nas taxas de conversão de vendas. Eu mesma, só hoje, enviei a alguns empresários-alunos da FEN Educação. Os que tinham mais capacidade de honrar com o endividamento x projeção de recebíveis nos próximos cinco anos.
Além disso, há um efeito secundário relevante: melhora aparente na qualidade do crédito. Com consumidores renegociados, bancos e fintechs conseguem recalibrar risco e ampliar concessões. Isso pode gerar uma nova onda de crédito na economia, facilitando vendas parceladas e reduzindo recusas. Para o empresário, o cenário inicial parece positivo: mais clientes aptos a comprar e menos fricção na aprovação.
Mas existe um ponto menos discutido e que exige atenção estratégica. Parte dessas renegociações pode ser feita com novo crédito para pagar crédito antigo. Ou seja, a dívida não desaparece completamente; ela é reestruturada, muitas vezes alongada no tempo. Isso melhora o presente, mas pode pressionar o futuro, principalmente se não houver aumento real de renda do consumidor.
Um exemplo prático ajuda a ilustrar. Imagine a empresa fictícia Varejo Alfa, que vende eletrodomésticos parcelados. Um cliente tinha R$ 5 mil em dívidas atrasadas. Com o Desenrola, ele negocia essa dívida com 80% de desconto, pagando R$ 1 mil. Para isso, toma um novo crédito parcelado em 12 vezes.
A dívida antiga praticamente desaparece, mas ele passa a ter uma nova obrigação mensal. Agora, motivado pelo “nome limpo”, ele compra uma geladeira de R$ 3 mil parcelada. Resultado: embora tenha reduzido o passivo anterior, ele volta rapidamente a carregar cerca de R$ 4 mil em compromissos financeiros ativos (R$ 1 mil renegociados + R$ 3 mil novos).
Para a empresa, isso cria um cenário ambíguo. No curto prazo, a venda acontece, receita sobe, caixa gira. Mas, no médio prazo, o risco volta a crescer. Se esse cliente não tiver aumento consistente de renda, pode voltar à inadimplência, agora com novas dívidas. Para empresas que vendem a prazo, isso pode significar crescimento acompanhado de deterioração da carteira.
Outro ponto relevante é que esse efeito não será uniforme. Empresas que trabalham com crédito próprio ou parcelamento direto tendem a sentir mais esse impacto. Já negócios com pagamento à vista ou com intermediação financeira podem capturar o upside sem absorver tanto risco. Ou seja, o desenho do modelo de negócio passa a ser determinante nesse novo ciclo.
No fim, o Desenrola Brasil cria uma janela de oportunidade, mas também um teste de disciplina empresarial. Não basta vender mais. É preciso entender a qualidade desse crescimento. Porque, em ciclos baseados em crédito, a diferença entre expansão e problema está em um detalhe invisível:
Se a dívida do cliente foi resolvida ou apenas empurrada para frente.
Camila Farani - Estadão