A reação do governo às recentes derrotas no Congresso segue um roteiro conhecido: surpresa, tentativa de atribuir culpa a terceiros e a sinalização de que será preciso retaliar supostos traidores.
Mas o problema não está no resultado. Está no diagnóstico.
Em sistemas políticos multipartidários como o brasileiro, derrotas legislativas não são exceção – são parte do funcionamento normal do jogo, especialmente quando o presidente não gerencia bem a sua coalizão. Presidentes não governam apenas com votos populares ou apoio difuso no legislativo. Governam com coalizões.
E coalizões não são construídas no momento da votação. São construídas antes e sustentadas ao longo do mandato. Coalizões diferem não apenas em tamanho, mas em grau de coesão ideológica, distribuição de poder e proximidade com o centro decisório do Congresso. Quando são amplas, heterogêneas e mal calibradas, os custos de coordenação aumentam – e as derrotas também.
Quando o governo perde, isso não significa necessariamente que perdeu poder. Significa, quase sempre, que falhou em coordená-lo. Esse padrão tem sido recorrente em governos que optam por coalizões extensas, pouco coesas e altamente centralizadas no Executivo, como tem sido o caso dos governos do PT.
Há uma diferença crucial entre ter recursos políticos e conseguir mobilizá-los de forma eficaz. O presidencialismo de coalizão brasileiro continua oferecendo instrumentos relevantes ao Executivo – controle de agenda, cargos, emendas, recursos de bancos públicos, prioridades legislativas. O que varia é a capacidade de usá-los com estratégia.
Sem coordenação, esses recursos se dispersam de forma ineficiente. O governo gasta muito – e aprova pouco.
O erro recorrente é interpretar derrotas como sinal de fraqueza estrutural – e responder com mais confronto. Mas, em ambientes fragmentados, confronto sem base organizada tende a produzir mais isolamento, não mais força – sobretudo em ano eleitoral.
Isso exige reconhecer que o Congresso não reage apenas a discursos ou pressões públicas, mas a incentivos concretos, previsibilidade e compromisso. Deputados e senadores operam sob lógica de sobrevivência política e eleitoral. Apoio não é automático – é construído.
Quando essa construção falha, o resultado aparece no plenário.
A tentação de transformar derrotas em narrativas de embate pode até gerar ganhos no curto prazo, especialmente na comunicação política para fãs já convertidos. Mas não resolve o problema central: a ausência de uma base coordenada capaz de sustentar a agenda do governo.
Derrotas legislativas, portanto, não são o problema. São o sintoma da incompreensão como o sistema presidencialista multipartidário de fato opera.
Carlos Pereira - Estadão