O deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS) fez a acusação mais grave que um parlamentar pode dirigir a um ministro do Supremo Tribunal Federal. Durante sua defesa na Comissão de Ética da Câmara, nesta terça-feira (5), disse que Alexandre de Moraes "tem sangue nas mãos" pela morte de Cleriston Pereira da Cunha, o Clezão. O réu do 8 de janeiro morreu na Penitenciária da Papuda em novembro de 2023, após um mal súbito. A PGR havia pedido sua soltura dois meses antes, mas Moraes não chegou a apreciar o pedido.
"Deixou o Clesão penar, sofrer, até que o mal súbito lhe acometeu e o levou dessa para uma melhor", afirmou Van Hattem, olhando na direção do relator do processo. O deputado citou as filhas do detento pelo nome. Pediu que o presidente e o relator da Comissão olhassem "no rosto de cada um" dos familiares presentes na galeria. Transformou o espaço de defesa pessoal em tribuna de acusação contra o STF.
Mas o trecho mais revelador do discurso não foi a denúncia contra Moraes. Foi o anúncio político. Van Hattem declarou abertamente que pretende disputar o Senado em 2026. E deixou claro o motivo: quer votar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. "No ano que vem, com uma maioria do Senado, que eu quero integrar, vamos fazer o impeachment de ministro do STF e a CPI do abuso de autoridade", disse.
A estratégia é evidente. O deputado está construindo sua candidatura ao Senado sobre dois pilares: a defesa dos condenados do 8 de janeiro e o confronto direto com Alexandre de Moraes. A suspensão de 60 dias aprovada pela Comissão de Ética, por 13 votos a 4, não é um obstáculo para essa narrativa. É combustível. Van Hattem sabe que cada punição institucional reforça o discurso de perseguição junto à sua base.
A decisão ainda precisa passar pela CCJ e pelo plenário da Câmara para se tornar definitiva. Se confirmada, o deputado ficará 60 dias sem mandato, sem voto e sem remuneração. Marcos Pollon (PL-MS) e Zé Trovão (PL-SC), que também ocuparam a Mesa Diretora em agosto de 2025, receberam a mesma punição.
Van Hattem encerrou sem tom de derrota. "A cada tentativa de censura, falamos mais alto. A cada tentativa de perseguição, reagimos com mais força." A frase não era para os 17 membros do Conselho de Ética. Era para os eleitores que ele quer conquistar em outubro.