A deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) voltou a cobrar publicamente a redução da publicidade de bets nas transmissões da CazéTV, de Casimiro Miguel. A crítica, porém, expôs uma contradição política: seu marido, João Campos (PSB), prefeito do Recife, comanda uma gestão que teve casas de apostas entre as principais parceiras de grandes eventos públicos, incluindo o Carnaval.
A cobrança de Tabata ocorre em meio à apuração preliminar aberta pela Senacon, ligada ao Ministério da Justiça, para verificar se anúncios de bets exibidos pela CazéTV durante a Copa do Mundo de 2026 respeitaram as normas de defesa do consumidor. O procedimento mira possíveis incentivos a apostas impulsivas, promessa de ganhos fáceis e uso de recursos como QR Codes direcionando espectadores a plataformas de jogos.
O ponto sensível é que o discurso contra a exposição das apostas parece variar conforme o alvo. Quando a publicidade aparece na tela da CazéTV, Tabata cobra responsabilidade de Casimiro. Mas, no Recife, a gestão de João Campos permitiu ampla presença de marca de bet em festas populares organizadas com forte participação do poder público.
Em 2025, a Esportes da Sorte foi apontada como patrocinadora máster do Carnaval do Recife, com aporte de R$ 5,5 milhões, segundo o Portal de Prefeitura. Já em 2026, reportagens locais citaram valor ainda maior, de R$ 7,32 milhões, associado à exposição da marca em estruturas, espaços públicos e ações promocionais durante a festa.
A contradição não é nova. Em 2025, Tabata apagou uma publicação em que criticava o patrocínio de bets a festas juninas em São Paulo após internautas lembrarem que eventos públicos do Recife, administrado por João Campos, também contavam com apoio de empresas do setor. O episódio foi registrado por veículos como Metrópoles e Poder360.
Além da publicidade em eventos, a gestão recifense também foi criticada por reduzir de 5% para 2% a alíquota do ISS sobre atividades ligadas a loterias e apostas eletrônicas. A Prefeitura alegou necessidade de manter empresas na cidade e preservar arrecadação, mas a medida enfraquece politicamente o discurso de combate duro às bets defendido por Tabata.
A CazéTV pode e deve ser fiscalizada se houver suspeita de publicidade abusiva. Mas a régua precisa ser a mesma. Se Tabata considera problemática a associação entre bets, futebol e influência digital, também precisa explicar por que a presença dessas empresas em festas populares do Recife, sob a gestão de seu marido, não recebe a mesma cobrança pública.