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Desconfianças sobre casos Master e INSS ampliam desconforto entre Mendonça e diretor-geral da PF

Desconfianças de lado a lado envolvendo o caso Master e as fraudes no INSS ampliaram o desconforto entre o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator de ambas as investigações na Corte.

Interlocutores do chefe da PF veem tentativas de fragilizá-lo vindas do gabinete do magistrado, se queixam de determinações que restringiram o acesso a dados de apurações e avaliam que há uma tentativa de “driblar” a corporação por meio de uma relação mais próxima entre o gabinete do ministro com a Procuradoria-Geral da República (PGR).

Auxiliares de Mendonça, por sua vez, manifestaram a pessoas próximas desconfiança com a direção-geral da PF em meio às investigações das supostas fraudes financeiras do Master e do escândalo dos descontos indevidos do INSS, casos que estão sob a relatoria do ministro, embora reforcem que acreditam no trabalho da corporação.

O episódio mais recente de antagonismo envolveu a operação da PF que apontou o elo com o Master do senador Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo Lula no Senado. Rodrigues manifestou irritação após circular a informação de que a direção-geral da corporação foi surpreendida com a medida. Interlocutores afirmam que o chefe da PF foi avisado por subordinados, como é de praxe, e atribuíram ao gabinete do ministro a versão sobre a “surpresa”.

A avaliação de interlocutores de Rodrigues é que, diante do clima de antagonismo, o ministro teria interesse em mostrar que o chefe da PF estaria fragilizado no comando e distante de temas relevantes. Já interlocutores de Mendonça negam a responsabilidade e dizem ser natural que Rodrigues tivesse conhecimento, em função da estrutura necessária para operações do tipo. Eles dizem, no entanto, que não cabe ao STF comunicar a direção-geral da PF. Procurados, Rodrigues e Mendonça não se manifestaram.

Já houve ruído entre os dois quando Mendonça assumiu a relatoria das investigações do Master no STF, após a saída do ministro Dias Toffoli do caso. De acordo com o portal Poder360, na reunião reservada entre os ministros em que a saída de Toffoli foi selada, Mendonça fez críticas ao relatório da PF que apontava a relação de Toffoli com Vorcaro — o material foi entregue por Rodrigues ao presidente do STF, Edson Fachin. No mesmo encontro, ainda de acordo com a publicação, Mendonça teria dito que uma “investida” da PF poderia ocorrer contra qualquer um dos ministros.

Além disso, uma das primeiras decisões do novo relator foi o compartilhamento dos dados, o que fez com que a PF tivesse amplo acesso aos materiais apreendidos, mas determinando regras estritas de preservação do sigilo.

O movimento foi interpretado por integrantes do governo como uma maneira de Mendonça limitar o acesso de informações sensíveis à direção-geral da PF, já que Rodrigues é considerado próximo de Lula, com quem costuma conversar frequentemente.

Na decisão que impôs restrições, contudo, Mendonça cita um entendimento já firmado por ele em outros casos, como a investigação do INSS, em que também houve limitações sobre quem estaria autorizado a ter contato com informações obtidas na investigação.

Além disso, interlocutores de Mendonça falam também de uma desconfiança em relação ao chefe da corporação. Hoje, a interlocução do ministro com a PF se dá, principalmente, por meio do delegado Thiago Marcantonio Ferreira, que atua em seu gabinete. Ferreira e Rodrigues, contudo, não mantêm uma boa relação, segundo relatos de interlocutores. A rusga remonta a 2022, época em que o delegado hoje no gabinete do relator coordenava a segurança dos candidatos à Presidência.

O ministro do Supremo também mantém diálogo direto com a Procuradoria-Geral da República (PGR), o que é interpretado por integrantes da PF como um jeito de driblar a cúpula da corporação.

Auxiliares de Mendonça contestam, porém, a avaliação de que o gabinete conduza as investigações e dizem que o ministro respeita e confia na corporação. Segundo eles, todas as medidas mais invasivas autorizadas nos inquéritos sob relatoria do magistrado foram previamente solicitadas pela Polícia Federal e analisadas pela PGR, cabendo ao relator apenas decidir sobre os pedidos. Na versão apresentada por eles, nenhuma diligência desse tipo foi determinada de ofício pelo gabinete.

Os interlocutores reconhecem que existe contato frequente entre integrantes do gabinete, investigadores da PF e membros da PGR, mas sustentam que essa interlocução é institucional e não significa que o Supremo passe a conduzir as apurações. Segundo eles, a função do gabinete é acompanhar a tramitação dos pedidos e esclarecer questões processuais, enquanto a condução das investigações permanece sob responsabilidade da PF.

Eles também negam que tenha havido qualquer tentativa de contornar a direção-geral da corporação. Segundo essa versão, a interlocução ocorre diretamente com as equipes responsáveis pelos inquéritos, que têm autonomia para conduzir as apurações, e não haveria motivo para “driblar” a cúpula. Integrantes do gabinete afirmam ainda que, ao assumir a relatoria do caso Master, Mendonça manteve a estrutura de investigação organizada pela própria Polícia Federal, sem interferir na escolha dos delegados responsáveis.

Outro motivo de desgaste entre Rodrigues e Mendonça, segundo interlocutores de ambos os lados, foi a decisão do Ministério da Justiça, ao qual a PF é subordinada, de convocar policiais federais que estão cedidos desempenhando funções em tribunais, órgãos públicos e administrações estaduais.

A determinação para essa convocação partiu do próprio presidente da República, sob argumento de reforçar o combate ao crime organizado, mas integrantes do Supremo enxergam nesse movimento uma retaliação a Mendonça.

Segundo relatos ao GLOBO, ministros do STF não teriam recebido bem a medida, que viram como tentativa de interferência e retaliação. Por isso, o Supremo fez com que chegasse ao Ministério da Justiça uma contrariedade da Corte caso a prática fosse levada adiante, o que não ocorreu.

Nesse primeiro momento de convocação, os policiais que estão hoje no STF não foram atingidos pela medida e permanecem em suas funções. Um integrante do Ministério da Justiça afirma, no entanto, que ainda podem ser convocados esses policiais. Aliados de Lula dizem que eles foram poupados para evitar que investigações em curso sejam prejudicadas. Além de Marcantonio, outros delegados da Polícia Federal atuam em gabinetes da Corte. É o caso de Fábio Shor, que atualmente trabalha com o ministro Alexandre de Moraes.

O Globo

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