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Lojas Americanas - Foto: Reprodução
economia

Operação na Americanas era gestada há mais de 6 meses

A Polícia Federal (PF) aguardava desde o fim do ano passado para colocar nas ruas a segunda fase da Operação Disclosure, que apura fraudes na varejista Americanas, apurou o Valor. A autorização da Justiça, no entanto, veio apenas na semana passada.

Na quinta-feira (25), dez mandados de busca e apreensão contra oito alvos foram cumpridos no Rio de Janeiro e em São Paulo, atingindo Carlos Alberto Sicupira, um dos acionistas de referência da varejista, ex-conselheiros e executivos de bancos credores da companhia. Foram recolhidos itens como celulares e notebooks.

Os inquéritos que levaram à operação foram abertos no ano passado, depois que a Polícia Federal fechou a primeira etapa das investigações sobre o caso, que veio à tona em 11 de janeiro de 2023. No inquérito principal, a PF concluiu que a Americanas foi alvo de uma fraude bilionária orquestrada pela antiga diretoria, encabeçada pelo ex-CEO Miguel Gutierrez. Com base nessa investigação, no fim de março de 2025, o Ministério Público Federal (MPF) ofereceu a denúncia de 13 ex-executivos da empresa, que ainda não foi recebida pela Justiça — ou seja, até hoje não há réus no caso.

Depois de fechar essa parte da investigação, a PF abriu novos inquéritos, desta vez para apurar se houve alguma participação de acionistas e seus representantes no conselho de administração e também de bancos e seus executivos. O objetivo é aprofundar declarações colhidas em depoimentos e colaborações premiadas de ex-diretores da rede, que relataram aos investigadores que tudo o que acontecia na empresa era repassado aos superiores. No caso dos bancos, há também trocas de mensagens e e-mails indicando que a varejista pediu a executivos das instituições financeiras que ocultassem operações de risco sacado das informações enviadas aos auditores nas chamadas cartas de circularização, de forma a ajudar a companhia a esconder sua real situação financeira.

Exemplo disso é o que aconteceu com o Itaú. "Bom dia. Falei com Itaú agora novamente. Dois caras precisam aprovar. Um já aprovou e o outro não. Nosso gerente vai colocar os dois agora para se falarem. O que aprovou vai precisar convencer o que não aprovou”, escreveu Fabio Abrate, então diretor financeiro da Americanas, a seus colegas na empresa em um grupo de WhatsApp chamado de “Auditoria 2016”, em 2 de fevereiro de 2017.

Segundo e-mails obtidos pelo Valor, a Americanas tinha dado duas sugestões ao banco: que excluísse o risco sacado da carta de circularização, ou que o mantivesse, mas enviasse um documento adicional afirmando que tais operações não se enquadravam no que a Comissão de Valores Mobiliários entendia como dívida. A mesma pressão foi feita junto a outras instituições financeiras. No caso do Itaú, o banco manteve a carta original, mas respondeu a um pedido adicional de informações da Americanas sobre algumas linhas de crédito, que não incluíam o risco sacado. A primeira carta foi enviada em anexo no mesmo e-mail, mas não se sabe o que aconteceu com ela.

A argumentação que sustentou o pedido da PF para a segunda fase da operação tem centenas de páginas, segundo uma fonte. Além de Sicupira, foram alvos Paulo Lemann, ex-conselheiro da Americanas e filho do empresário e acionista Jorge Paulo Lemann; Eduardo Saggioro, presidente do conselho; José Rudge, diretor do Itaú BBA; Gustavo Balassiano, ex-executivo do Itaú BBA; Carlos Pedras, diretor-executivo do Bradesco; André Juaçaba de Almeida, vice-presidente do Santander; e André Abdo, também do Santander. De acordo com nota da PF, sem muitos detalhes, os investigados teriam “pleno conhecimento das fraudes contábeis praticadas ao longo dos anos” na empresa.

A ação surpreendeu os envolvidos, que, desde o ano passado, esperavam ser chamados a depor em algum momento, mas não entendiam ser alvos de busca e apreensão, de acordo fontes ligadas a vários deles. Outro aspecto que levou a questionamentos entre advogados do caso e pessoas próximas à rede envolve os R$ 54 bilhões citados pela PF em nota, ao se referir às fraudes contábeis estimadas neste montante conforme a perícia policial. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio determinou o sequestro de bens em nome dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões. O processo tem dívidas concursais de R$ 42,5 bilhões. A fraude foi calculada pela empresa em R$ 25 bilhões, e foi esse valor que balizou o aumento de capital feito por acionistas e credores.

“Não sei como chegaram a esse valor, não conseguimos entender essa conta”, diz um advogado de um dos investigados. Paralelo a isso, nos últimos dias, a Americanas tratou de tentar acalmar funcionários, parceiros e fornecedores com o envio de comunicados para reforçar que não estava envolvida diretamente na segunda fase da Operação Disclosure.nUma nota curta foi encaminhada a empregados logo na quinta-feira, dia da ação da Polícia Federal, com o intuito de reforçar que a varejista continua voltada para a sua nova fase de retomada de resultados, dizem fontes. Um texto também foi enviado a fornecedores, até pela importância de manter acesso às linhas de financiamento e crédito da empresa, vitais para geração de receita. Na sexta-feira (26), no canal de comunicação interno, a questão também foi alvo de abordagem pela área jurídica junto aos funcionários.

A Americanas está buscando a saída da recuperação judicial desde que encaminhou essa solicitação à Justiça do Rio de Janeiro, no dia 25 de março, e a questão passa a ser decidida agora num cenário com possíveis novos desdobramentos. Na visão de pessoas próximas à empresa, a análise da saída da recuperação judicial precisa ser feita de forma independente, considerando a análise técnica dos trâmites jurídicos da recuperação. Há parecer favorável do administrador judicial (o escritório de Advocacia Zveiter e a Preserva-Ação Administração Judicial), e do Ministério Público. Isso abriria caminho favorável para um avanço no pedido, na visão de uma fonte ouvida que defende essa tese.

Mas a questão, na visão de um advogado especializado há 25 anos em recuperação judicial, é se a Justiça — agora que os holofotes se voltaram para a Americanas, e para os sócios de referência — daria uma decisão dessa magnitude. “Tecnicamente, nada disso deveria importar, só que é inegável que a dose de cautela do magistrado tende a aumentar, por uma questão de prudência”, afirma ele.

A solicitação da empresa, feita no fim de março, continua sob análise do juiz Paulo Assed Estefan, da 4ª Vara Empresarial da Comarca do Rio de Janeiro. O pedido, dois anos após a homologação do plano de recuperação, ocorreu dentro do prazo mínimo legal que uma empresa nessa condição pode solicitar o encerramento da recuperação. Pelos dados atuais, a Americanas hoje é uma empresa cujo último balanço, relativo ao primeiro trimestre, mostra vendas em alta, prejuízo em queda. A companhia mantém compromisso de quitação de obrigações com fornecedores, no âmbito da recuperação judicial, com pagamentos previstos em até 60 parcelas mensais, a partir de abril de 2024, e precisa gerar caixa próprio para arcar com essa conta.

A venda líquida cresceu 20% de janeiro a março, para R$ 3 bilhões de janeiro a março, e o prejuízo caiu 34%, para R$ 329 milhões. Sobre a estrutura de capital, eram R$ 2,1 bilhões de dívida bruta, para R$ 1,7 bilhão em caixa, restando, portanto, uma dívida líquida de R$ 347 milhões.

Na quinta-feira, os acionistas de referência divulgaram nota na qual disseram ter sido surpreendidos pela ação da PF. “As investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal ao longo dos últimos anos, inclusive com base em acordos de colaboração premiada, indicam que o conselho de administração e os acionistas de referência foram continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria. Os acionistas de referência entendem que a operação integra o curso regular das apurações em andamento e reiteram seu compromisso de colaborar plenamente com as autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos, como vêm fazendo desde 11 de janeiro de 2023, quando tiveram conhecimento das fraudes contábeis”, afirmaram no texto.

O Itaú disse que não é investigado, mas colabora com as autoridades desde o início do caso. “As investigações oficiais já demonstraram que a varejista foi palco de uma das maiores fraudes corporativas do país. O banco, que sofreu perdas bilionárias com o episódio, já comprovou a lisura de sua conduta e da atuação de seus funcionários por meio de documentos apresentados à Justiça. Os registros deixam claro, por exemplo, que o Itaú recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços”, disse por meio de nota.

O Santander afirmou que “está ao lado das partes prejudicadas na apuração das fraudes envolvendo a Americanas e segue colaborando com as autoridades competentes, como tem feito desde o início das apurações”. O banco disse reiterar “seu compromisso com a ética, a transparência e o estrito cumprimento da regulamentação em suas operações.”

O Bradesco disse que “acompanha e está à disposição das autoridades”.

Na quinta-feira, a Americanas disse, em nota, que não foi alvo de mandados de busca e que seguirá colaborando com as investigações e é a maior interessada no esclarecimento dos fatos”, relatou.

Valor Econômico

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