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Depois de décadas no poder, Renan Calheiros enfrenta o cenário mais perigoso de sua carreira política

Ele já foi presidente do Senado. Já sobreviveu a pedidos de cassação, escândalos nacionais, mudanças de governo e adversários de todos os matizes ideológicos. Mas em 2026, pela primeira vez em décadas, Renan Calheiros (MDB-AL) enfrenta um cenário real em que a reeleição ao Senado deixou de ser uma formalidade e passou a ser uma incógnita.

Os números contam parte da história. Na pesquisa mais recente do Instituto Falpe, realizada em maio com 5.000 eleitores, Renan lidera com 37,25% na soma de primeiro e segundo votos — confortável à primeira vista, mas perigoso quando analisado em profundidade. No primeiro voto isolado, sua vantagem sobre Alfredo Gaspar (PL) é de apenas 7,5 pontos: 24% contra 16,5%. Arthur Lira (PP) aparece com 13,5% e Davi Davino Filho com 9%. Em uma disputa com duas vagas e pelo menos sete pré-candidatos competitivos, os votos se diluem — e qualquer movimentação de alianças pode alterar drasticamente o tabuleiro.

Mais preocupante para Renan é o dado que nenhuma liderança apurada esconde: sua rejeição. Pesquisas da Paraná Pesquisas já registraram rejeição de 26,9% — a segunda mais alta entre todos os pré-candidatos, atrás apenas de Paulão (PT). Em um estado onde 22% a 23% dos eleitores ainda não definiram o voto, esse nível de rejeição funciona como um teto: há um quarto do eleitorado que simplesmente não votará em Renan sob nenhuma circunstância.

O ambiente político ao redor do senador também se deteriorou. A entrada de Alfredo Gaspar na disputa reorganizou completamente a corrida. Gaspar não é um adversário qualquer: como relator da CPMI do INSS, ganhou projeção nacional ao desmontar o esquema de consignados que envolve os bancos BMG e Master — exatamente o mesmo terreno em que Renan tenta se posicionar como defensor dos aposentados. Com o apoio do PL e uma imagem associada ao combate à corrupção, Gaspar compete diretamente pelo eleitorado conservador e antipetista que, em Alagoas, é majoritário. Em uma pesquisa do Instituto Veritá, de março, Gaspar chegou a liderar com 25,8%, contra 12,9% de Renan — um cenário em que o senador nem sequer garantiria a segunda vaga.

Some-se a isso a guerra aberta com a família Caldas. A senadora Dra. Eudócia, mesmo com apenas 1,5% a 3,5% nas pesquisas, transformou-se em uma adversária barulhenta e incômoda. Suas acusações de que Renan seria o "advogado de Vorcaro" e "mentor do maior escândalo financeiro do país" ganham tração nas redes sociais e nas manchetes. A cada notícia-crime protocolada, a cada discurso na tribuna, a cada desafio público para que Renan assine a CPI do BMG-Master, Eudócia arranha a imagem do senador junto a um eleitorado que já demonstra fadiga em relação ao velho estilo de fazer política.

O escândalo do Banco Master, que deveria ser uma oportunidade para Renan se projetar como protetor dos aposentados, virou uma faca de dois gumes. Sua proposta controversa de incluir fundos de pensão municipais no FGC para cobrir os prejuízos foi criticada pelo próprio Banco Central, por analistas do mercado financeiro e, obviamente, por Eudócia. A leitura dos adversários é simples: Renan quer usar dinheiro público para resolver um problema que beneficia seus aliados. Certo ou errado, a narrativa cola.

Há ainda o fator geracional. Renan está no Senado desde 1995. São mais de 30 anos. Em um estado jovem — Alagoas tem uma das populações mais jovens do Brasil — a longevidade política que antes era sinônimo de experiência começa a ser percebida como sinônimo de perpetuação. Gaspar tem 47 anos. JHC tem 35. A renovação bate à porta, e Renan, aos 71, sabe que o argumento da tradição já não basta.

Isso não significa que Renan esteja derrotado. Ele continua liderando as pesquisas, tem a maior estrutura partidária do estado, controla alianças com prefeitos do interior e sabe como ninguém navegar o jogo político do Senado. A presidência da CAE lhe dá visibilidade nacional e poder de pauta. Sua experiência em campanhas é incomparável. E a fragmentação dos adversários — Gaspar, Lira, Davino Filho, Eudócia — pode, paradoxalmente, beneficiá-lo se nenhum deles conseguir consolidar uma frente única contra o emedebista.

Mas o cenário é inédito. Pela primeira vez, Renan não enfrenta apenas um adversário; enfrenta vários, todos com algum grau de competitividade. Pela primeira vez, sua rejeição é tão alta quanto sua liderança. Pela primeira vez, uma colega de bancada o ataca abertamente em tribuna, nas redes sociais e nos tribunais. Pela primeira vez, o caso que ele tenta capitalizar — o Banco Master — pode se voltar contra ele.

Renan Calheiros já sobreviveu a muita coisa. Mas 2026 pode ser o ano em que a história decide cobrar a conta.

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