A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), eleita em 2022 impulsionada pelo apoio da então primeira-dama Michelle Bolsonaro, vem ameaçando desistir de colaborar com o plano de governo da campanha de Flávio Bolsonaro (PL). A parlamentar se irritou com o avanço da ofensiva de aliados do presidenciável nas redes contra ela e Michelle em meio à disputa de poder no núcleo bolsonarista que se arrasta desde a semana passada.
Em resposta aos ataques, a senadora já avisou que não vai comparecer ao encontro de Flávio com lideranças femininas, programado para esta quarta-feira (1) em Brasília. O recuo na participação da campanha dele ao Palácio do Planalto pode ser o próximo passo de Damares, segundo interlocutores próximos da parlamentar.
Como antecipamos no blog na última quarta-feira, a ex-ministra de Jair Bolsonaro foi sondada para contribuir com a redação de programas voltados para os direitos humanos e assistência social.
O convite partiu da correligionária Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal no governo Bolsonaro e cotada para a vice de Flávio, e representou um aceno da campanha ao eleitorado femino – principal calcanhar de Aquiles do pré-candidato.
Mas, ao que tudo indica, os planos de Daniella e Flávio devem ir por água abaixo diante do fogo amigo bolsonarista que vem se intensificando desde que Michelle Bolsonaro divulgou na semana passada um vídeo de 27 minutos com duras críticas ao enteado presidenciável e escancarando divergências sobre palanques estaduais do PL nos quais ela alega ter sido preterida.
Damares saiu em defesa da ex-primeira-dama e tentou botar panos quentes na relação da aliada com o Flávio, mas nos últimos dias vinha evitando confirmar sua presença no encontro de lideranças femininas, assim como a própria Michelle.
A senadora do Republicanos passou a ser cobrada por bolsonaristas e discutiu publicamente com Paulo Figueiredo, aliado do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL), na rede social X depois que ele criticou a indefinição sobre a participação dela no evento.
“Se fosse da Janja ou da Maria do Rosário estariam todas unidas, certo?”, escreveu Figueiredo em referência à atual primeira-dama e à deputada federal do PT ao citar uma declaração da senadora ao Metrópoles sobre estar “orando” para decidir se participaria da agenda partidária.
Damares respondeu defendendo sua militância conservadora e convidou o aliado de Eduardo, que teve o passaporte brasileiro cancelado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no inquérito dos atos antidemocráticos, a visitar seu gabinete em Brasília.
Figueiredo, que vive nos Estados Unidos, respondeu insinuando que a ex-ministra não abraçou a agenda bolsonarista contra o STF em seu mandato e aderiu à “militância feminista” e a “projetos bastante esquisitos” para a direita e que ele só poderia visitá-la no Brasil caso Flávio seja eleito presidente.
“E aí, podemos contar com seu apoio ao Flávio ou ainda está ‘orando’?”, retrucou.
Oswaldo Eustáquio, outro bolsonarista que têm disparado críticas a Michelle e vive na Espanha, chamou Damares de “uma das maiores feministas do Brasil” e fez insinuações sobre sua vida conjugal, o que enfureceu a parlamentar, segundo a equipe da coluna apurou.
No vídeo de 27 minutos divulgado na última quarta-feira, Michelle Bolsonaro denunciou a atuação de um “grupo do exterior” com ataques tanto à sua atuação política quanto à sua vida pessoal, em uma referência indireta a Eduardo e outros militantes bolsonaristas “autoexilados” em países estrangeiros.
Os desdobramentos da crise levaram à renúncia da ex-primeira-dama da presidência do PL Mulher na noite da última terça após uma conversa com o dirigente nacional do partido, Valdemar Costa Neto. Diante da saída e dos rumores de uma eventual desistência da pré-candidatura dela ao Senado pelo Distrito Federal, Damares divulgou uma nota na qual afirma que a decisão da aliada demonstra que ela “tem uma causa, e não um projeto de poder”.
“Agora, você se afasta dessa liderança direta para cuidar da sua família e do nosso grande líder, que tanto precisa de você neste momento”, diz o comunicado em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Às mulheres que caminharam conosco até aqui: a Michelle não está jogando a toalha. Ela plantou a semente e nos deu as ferramentas. O recado dela para cada uma de nós é claro: fiquem firmes! Estejam prontas para os desafios da política. A colheita de tudo o que ela plantou começou agora, e nós somos a continuidade dessa missão”.
O Globo