O padre Françoá Costa, excomungado pelo Vaticano por se vincular à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, um grupo católico que desafiou o papa Leão XIV, diz que vai manter a sua rotina de trabalho ligada à Igreja. “Não somos cismáticos, nem excomungados. Não incorremos em censura alguma”, disse ao Estadão.
Capelão da Capela de Santo Atanásio, em Ceilândia, no Distrito Federal, o padre teve a excomunhão confirmada pela Arquidiocese de Brasília por seu vínculo com a Fraternidade São Pio X. A congregação de origem francesa desafiou a autoridade do papa, foi considerada cismática e excomungada por Leão XIV.
O Vaticano determinou que padres e fiéis que aderirem formalmente à fraternidade passam a ser considerados em situação de cisma e, consequentemente, também sejam excomungados.
Em nota pastoral, a Arquidiocese de Brasília confirmou a excomunhão do padre Françoá Costa devido à sua adesão à Fraternidade. Diz a nota que os atos ministeriais do sacerdote consideram-se ilícitos, a partir da excomunhão, e que os sacramentos da penitência e do matrimônio ministrados por ele são nulos.
O padre diz que o código canônico, lei maior da Igreja Católica, prevê a excomunhão, mas não se aplicaria à Fraternidade. Segundo ele, como não houve recusa ao pontífice romano, nem à comunhão com os católicos, não houve o cisma. “Sendo assim, já que não incorremos em censura alguma, as declarações de cisma e de excomunhão são inválidas, nulas. Vamos continuar as nossas atividades, conscientes de que todos os sacramentos que se administram em nossa capela são válidos e igualmente lícitos.”
O padre, inclusive, diz que manterá as atividades com os fiéis que frequentam a Capela de Santo Atanásio. “As pessoas pensam que somos cismáticos e excomungados, mas nós estamos tranquilos. A nossa vida segue normal. Teremos casamentos, confissões, missa todos os dias.”
Ele diz que os superiores da Fraternidade Pio X estão estudando alguma medida em relação à decisão do Vaticano. “Da nossa parte, não vamos recorrer porque não nos consideramos excomungados. Como eles (Vaticano) acham que sim, o diálogo se torna impossível.”
O padre se insurge contra as mudanças feitas na igreja que a “afundou” em modernismos, segundo ele. “Estamos dispostos a qualquer coisa para recuperar a Igreja tradicional. O Concílio Vaticano II admitiu doutrinas que não são compatíveis com a tradição da Igreja Católica. Nós nos opomos ao ecumenismo do concílio.”
O concílio, realizado na década de 1960, marcou uma das maiores reformas da história recente da Igreja Católica. Entre as mudanças, as missas deixaram de ser celebradas obrigatoriamente em latim, adotando os idiomas de cada país, e os padres passaram a celebrar voltados para o público e não de costas para ele. A Igreja também ampliou o diálogo com outras religiões.
Para o padre Françoá, a igreja se tornou ‘protestantizada’. “Não conseguimos aceitar essa missa nova. O humanismo, onde o homem ocupa o lugar de Deus, nós também não aceitamos. O papa São Pio X disse que o modernismo é a síntese de todas as heresias. E é contra essas heresias que nós lutamos. Nós aceitamos o papa Leão XIV, e rezo todos os dias para ele. Não queremos uma separação da Igreja Católica, mas não aceitamos essas ideias heréticas.”
Françoá revelou ao Estadão que, no próximo dia 16, vai publicar uma carta aberta aos católicos de Brasília e uma nota à imprensa esclarecendo a posição da Capela sobre a decisão do Vaticano. “Vamos continuar as nossas atividades, conscientes de que todos os Sacramentos que se administram em nossa Capela são válidos e igualmente lícitos, por analogia canônica de aplicação da jurisdição de suplência (princípio canônico da Igreja)”, disse.
Quem é o padre que o Vaticano excomungou
O padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa foi ordenado sacerdote pela Igreja Católica em dezembro de 2004. Ele logo ficou conhecido pela atuação acadêmica dentro da Igreja, onde fez carreira como professor de teologia, dirigiu uma faculdade católica e publicou livros sobre espiritualidade e doutrina.
Natural de Redenção do Gurguéia (PI), nasceu em 1979 e foi ordenado sacerdote pela Diocese de Anápolis (GO). É bacharel em filosofia, licenciado em estudos eclesiásticos e doutor em teologia sistemática pela Universidade de Navarra, na Espanha, uma das instituições mais prestigiadas do mundo católico.
Ao longo da carreira, lecionou teologia sistemática, ocupou cargos de direção na Faculdade Católica de Anápolis e atuou em paróquias de Goiás e do Distrito Federal. Também escreveu livros voltados à formação religiosa e, durante anos, produziu conteúdos sobre espiritualidade para fiéis pela internet.
Nos últimos anos, passou a se aproximar da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. O grupo tradicionalista foi fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre e rejeita parte das reformas implementadas pela Igreja após o Concílio Vaticano II.
Françoá comunicou oficialmente à Arquidiocese de Brasília sua adesão à fraternidade em abril de 2025. Desde então, assumiu a Capela Santo Atanásio, em Ceilândia (DF), onde passou a celebrar exclusivamente a missa no rito tridentino, em latim, e a defender publicamente as posições da congregação.
Em seu site, a Capela Santo Atanásio informa que é uma comunidade católica, vinculada à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, na qual a eucaristia e os demais sacramentos são celebrados conforme o rito católico tradicional.
Grupo que desafia Leão XIV só pode voltar à Igreja Católica se jurar lealdade ao papa e ao concílio
No início do mês, o Vaticano excomungou bispos, sacerdotes e leigos que aderirem formalmente à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Trata-se do primeiro cisma da Igreja em 38 anos – e, como o anterior, envolve o grupo fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre.
Roma ainda definiu regras para quem quiser deixar a excomunhão e “voltar à unidade”, que incluem a rejeição a alguns dos fundamentos da ultratradicionalista FSSPX, como a aceitação formal do Concílio Vaticano II e a submissão ao papa.
Oficialmente, o Vaticano chamou a nomeação de quatro bispos pelo grupo tradicionalista, sem o aval de Leão XIV, de “ato de natureza cismática”, isto é, de dissidência.
A FSSPX é influente em círculos conservadores no mundo todo, contando com 2 bispos, 733 sacerdotes, 264 seminaristas, 145 irmãos religiosos, 88 oblatos e 250 religiosas, representando 50 nacionalidades.
Em seu site em língua portuguesa, a fraternidade “defende-se de qualquer acusação de cisma e considera, apoiando-se em toda a teologia tradicional e no ensinamento constante da Igreja, que uma consagração episcopal não autorizada pela Santa Sé – quando não é acompanhada nem de uma intenção cismática, nem da colação da jurisdição não constitui ruptura da comunhão”. E alega necessidade pastoral para as ordenações, por causa de seus fiéis e da idade de seus bispos.
Estadão