O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, disse em um novo depoimento à Polícia Federal que a autarquia passou por “vazamentos sistemáticos de informações internas” envolvendo os processos de análise do Banco Master e afirmou que ele e o presidente do BC, Gabriel Galípolo, “não confiavam em ninguém naquele momento”.
Aquino foi ouvido pela PF na condição de testemunha em um depoimento sigiloso no dia 25 de maio, para aprofundar as investigações sobre suspeitas de corrupção de dois subordinados seus no Banco Central, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza.
O Estadão teve acesso com exclusividade ao relato do diretor do BC, que também contou como Galípolo lhe acionou para apurar as suspeitas de cooptação dos dois servidores. Procurado, o Banco Central não se manifestou, nem seu presidente.
A defesa de Paulo Sérgio nega irregularidades, afirma que ele “jamais recebeu qualquer vantagem indevida” e atuou de forma técnica na fiscalização. Disse ainda que ele defendeu internamente que fosse decretada a liquidação do Master e que as investigações da PF se basearam no trabalho dele de fiscalização. A defesa de Belline também nega atuação para beneficiar o Master (leia ao final).
Aquino já havia prestado depoimento em dezembro, no Supremo Tribunal Federal (STF), sobre as suspeitas de fraudes na compra de carteiras do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB). Na época, o interrogatório havia sido convocado pelo ministro Dias Toffoli que era relator do caso antes de deixar o processo por conta de seu envolvimento com Vorcaro.
Após o aprofundamento da investigação sobre a corrupção de Belline e Paulo Sérgio, a PF chamou Aquino para falar sobre a conduta dos dois servidores em relação ao caso Master.
Questionado se desconfiou de alguma atitude deles durante o trabalho de fiscalização do Master, Aquino afirmou que sabia que os dois servidores mantinham contato direto com Vorcaro, mas disse que era natural uma relação desse tipo para facilitar o fluxo de informações para a fiscalização do banco.
Aquino disse que não tinha conhecimento que os servidores antecipavam a Vorcaro os questionamentos que seriam feitos pelo setor de fiscalização e lhe ajudavam a montar as respostas. “Não é comum por parte do fiscal”, afirmou à PF.
A suspeita sobre pagamentos de propina aos dois foi comunicada a ele diretamente pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, em uma reunião com a presença também do procurador do BC, Cristiano Cozer. Galípolo e Cozer foram procurados por meio da assessoria do BC, mas não se manifestaram.
“No dia 7 de janeiro de 2026, às 14h30, foi convocado pelo presidente do Banco Central para uma reunião em que foi comunicado, na presença do procurador Cristiano, ter recebido verbalmente informações de interlocutores sob condição de anonimato no sentido de que os servidores Paulo Sérgio e Bellini Santana haviam recebido valores de Daniel Vorcaro; que, ao ser comunicado, declarou ao presidente que tomaria o depoimento de ambos ainda naquele dia”, relatou à PF.
Para sua surpresa, ambos confirmaram os negócios mantidos com aliados de Vorcaro. O primeiro a ser indagado foi Belline, convocado para uma reunião na sala de Aquino naquele mesmo dia. Ele disse ter feito um trabalho de consultoria para o empresário Leonardo Palhares por R$ 2 milhões, mas afirmou desconhecer qualquer relação dele com o Banco Master – Palhares aparece como sócio de fundos e empresas que recebem dinheiro do ecossistema do banco.
Já Paulo Sérgio foi indagado por videoconferência e contou ter vendido um imóvel rural no interior de Minas Gerais por R$ 4,5 milhões a uma pessoa ligada a Vorcaro. Com isso, o BC decidiu abrir procedimento na corregedoria e afastar os servidores.
O diretor do BC contou à PF que não compartilhou com Belline nem com Paulo Sérgio a decisão de liquidar o Master, em novembro de 2025, por receio de que pudesse haver vazamento para o banqueiro antes da concretização da medida, e disse que ele e Galípolo “não confiavam em ninguém”.
“Ao ser indagado se os servidores Paulo Sérgio e Bellini Santana tinham conhecimento de que havia uma decisão tomada pela liquidação do Banco Master, afirma categoricamente que não; que o depoente e o presidente Gabriel não confiavam em ninguém naquele momento, e que poucas pessoas chegaram a saber da decisão; que nem a própria Diretoria do Banco Central sabia, o que é natural em procedimentos dessa natureza, dada a enorme preocupação com vazamento de informações”, afirmou.
Aquino lembrou que Vorcaro insistiu para realizar uma reunião com a Diretoria de Fiscalização para anunciar a operação de venda do Master ao grupo Fictor em consórcio com investidores árabes. Essa reunião acabou sendo realizada por videoconferência na tarde do dia 17 de novembro, com a participação de Belline e Paulo Sérgio. Nesse mesmo dia, Vorcaro foi preso pela primeira vez pela PF.
O diretor do BC explica que naquele momento já estava tomada a decisão de liquidar o Master e deixou a reunião sem fazer nenhum compromisso com Vorcaro.
“Vorcaro insistia em perguntar ao depoente qual era sua opinião e o que achava da proposta, como se buscasse uma manifestação favorável; que, internamente, o depoente já havia tomado a decisão pela liquidação, de modo que a reunião foi encerrada sem qualquer comprometimento de sua parte”, contou no depoimento. O diretor revelou ainda que, naquele dia, convocou o servidor Márcio — chefe de divisão e terceiro na linha sucessória do departamento — e determinou que ele deveria estar na porta do Banco Master na manhã do dia seguinte, mantendo a ordem em sigilo.
“Seguindo a governança interna, o presidente Gabriel convocou reunião de diretoria, o depoente apresentou o voto de liquidação e a decisão foi tomada naquele mesmo dia; que a decisão de liquidação nunca foi comunicada previamente ao banqueiro, pois o banqueiro não pode ter ciência antes da execução — ele só tomaria conhecimento na manhã seguinte, às 7h, quando a equipe do Banco Central já estivesse na porta da instituição, pois, se soubesse antes, o procedimento não funcionaria”, disse, segundo o termo de depoimento.
A PF, então, quis saber de Aquino se o sigilo nessa decisão ocorreu porque já havia desconfiança de que Belline e Paulo Sérgio estavam cooptados. Ele respondeu, então, que não havia essa suspeita específica, mas sim um “ambiente hostil” de vazamentos dentro do BC sobre tudo que envolvia o Master.
“A razão principal era a existência de vazamentos sistemáticos de informações internas do Banco Central; que tudo vazava — decisões, análises, votos ainda em fase de minuta —, chegando ao conhecimento tanto dos fiscalizados quanto da imprensa; que era um ambiente hostil e muito difícil”, afirmou no depoimento. O diretor preferiu não citar situações específicas de suspeita de vazamentos de informação para não ser “leviano”.
“O sentimento geral era de que, antes mesmo de um voto ser concluído como decisão formal, uma ou outra pessoa já ficava sabendo, e a imprensa também tomava conhecimento de assuntos relativos ao Banco Master”, afirmou, de acordo com o depoimento.
Questionado se achava que Vorcaro já sabia da liquidação, por causa da pressa em anunciar uma solução de mercado para o Master, Aquino disse desconfiar que sim, mas que não tinha certeza da informação.
Ele também foi perguntado se houve alguma ordem interna no BC para apurar esses constantes vazamentos, mas respondeu negativamente. “A identidade do responsável pelos vazamentos nunca foi apurada, pois é da natureza da situação que a fonte não se revele; que foi justamente esse quadro que levou à decisão de manter a liquidação em círculo absolutamente fechado”, disse.
O que diz a defesa de Paulo Sérgio
Procurada, a defesa de Paulo Sérgio afirmou que ele não recebeu nenhuma vantagem indevida e disse que atuou com “rigor técnico e absoluta observância dos critérios legais”. Leia a nota enviada pelo advogado Odel Mikael Jean Antun:
“De antemão, necessário consignar que esses e outros questionamentos foram todos esclarecidos por Paulo Sérgio Neves Dias de Souza no último dia 10 de julho, em sede de depoimento prestado à Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero. Em um primeiro momento, cabe esclarecer que Paulo Souza foi abordado pelo Diretor Ailton sobre a existência de uma suposta denúncia anônima, cujo teor nunca constou nos autos da sindicância do Banco Central. Espontaneamente, o próprio Paulo Souza esclareceu de imediato que vendeu propriedade rural em janeiro de 2020 a cunhado de Daniel Vorcaro, o qual jamais integrou o sistema financeiro nacional. Ao fim, o processo administrativo foi instruído a partir do relato de Paulo Souza. A venda do sítio não representa qualquer espécie de contrapartida a qualquer vantagem ilícita supostamente decorrente de atos praticados pelo servidor. No caso, foram travadas sérias negociações com o comprador interessado a respeito de valores e de área a ser vendida e, ao fim, a compra e venda do sítio foi celebrada de forma absolutamente legítima com Fabiano Zettel, o qual, no momento da assinatura do contrato em 17 de janeiro de 2020, se apresentou como pertencente ao ramo imobiliário, demonstrando particular interesse na realização de projeto de loteamento no terreno. Em pesquisas naquele contexto, não foi localizada qualquer vinculação com o Banco Master, mas somente sua atuação como pastor. Somente quase um ano depois, na ocasião de lavratura da escritura do imóvel, o comprador Fabiano Zettel revelou, em conversa, ser cunhado de Daniel Vorcaro, mas assegurou não possuir qualquer relação com o Banco Master ou com o sistema financeiro. Nesse sentido, todos os pagamentos foram realizados da conta pessoa física do comprador Fabiano Zettel para sua conta pessoa física e a transação foi informada em declaração de imposto de renda, não tendo havido qualquer tentativa de mascarar ou ocultar a transação imobiliária. Já os diálogos com o controlador Daniel Vorcaro tratavam exclusivamente de assuntos de supervisão bancária exercida pelo Banco Central do Brasil no Banco Master, cujos interesses jamais foram privilegiados (.) Ainda, é justamente a partir da atividade de supervisão, pautada no acompanhamento transparente da instituição bancária no dia a dia operacional, que foi possível a atuação efetiva de Paulo Sérgio na identificação, apuração e formalização de indícios de irregularidades na instituição supervisionada. No depoimento supracitado, foi demonstrado de maneira irretorquível que as fases 1 e 2 da Operação Compliance Zero decorreram de prontas ações suas e de sua equipe, tendo o próprio Paulo Sérgio, ao final da fase de comprovação de indícios de fraude e quando da anuência dos seus superiores hierárquicos, preparado a representação encaminhada ao Ministério Público Federal. Nessa toada, não houve qualquer desvio de conduta por parte deste servidor que motivasse o não compartilhamento de informações sobre a liquidação do Banco Master. Era de praxe que a decisão a respeito da execução da liquidação fosse mantida em círculo absolutamente fechado, tanto que sequer demais diretores teriam sido previamente informados. Ainda assim, cabe ressaltar que o servidor Paulo Sérgio defendia internamente a liquidação do Banco Master desde março de 2025, quando se tornava evidente o agravamento da situação de liquidez da instituição, ou seja, até mesmo antes da Diretoria do BACEN ter optado por esse caminho. Portanto, Paulo Souza jamais recebeu quaisquer vantagem indevida ou ilícita em razão de seu cargo, tendo desempenhado suas funções com independência, rigor técnico e absoluta observância dos deveres funcionais ao longo de cerca de 28 anos de carreira com importantes serviços prestados ao Banco Central do Brasil”.
O que diz a defesa de Belline Santana
Os advogados do Sr. BELLINE SANTANA informam que todos os esclarecimentos acerca de suas atividades, integralmente lícitas, já foram apresentadas ao Banco Central do Brasil (“BCB”), estando igualmente à disposição da Polícia Federal para o que for necessário. Cumpre ressaltar o Sr. BELLINE SANTANA, como servidor de carreira, sempre exerceu suas atividades no BCB de forma técnica e, sobretudo, lícita, dentro dos limites legais e em observância à natureza prudencial inerente à referida autarquia na supervisão do sistema financeiro nacional. Isso significa dizer que não houve, de sua parte, favorecimento a qualquer Instituição Financeira, muito menos ao Banco MASTER, esperando-se que seja resguardado o regular contraditório e a adequada apuração dos fatos nas instâncias competentes. O exercício regular das funções do Sr. BELLINE SANTANA perante o BCB não se confunde com outras atividades que, como dito, são lícitas, não havendo desvio de finalidade ou obtenção de vantagem indevida. Da mesma forma, eventuais relações mantidas por terceiros com pessoas ligadas ao Banco MASTER não podem ser automaticamente atribuídas ao Sr. BELLINE SANTANA, tampouco servem para conferir caráter ilícito a relações profissionais regularmente estabelecidas. Por fim, o Sr. BELLINE SANTANA jamais recebeu qualquer pagamento de DANIEL VORCARO ou do Banco MASTER e tampouco praticou qualquer ato destinado a favorecer seus interesses, confiando que a análise técnica dos fatos, desprendida de subjetivismo, permitirá o completo esclarecimento das circunstâncias ora apontadas.
Estadão