Rosas di Maria 2
getty-1.avif
cidades

'A geração sóbria': por que cada vez mais jovens trocam o álcool por remédios de ansiedade — e por que isso preocupa

A notícia é do G1: 

Para curtir uma noite com os amigos, Matt chegou a beber até passar mal.

Sem isso, o jovem de 22 anos do norte da Inglaterra diz que passaria a noite em silêncio, apavorado com a possibilidade de falar algo errado. O inglês, que trabalha como funcionário de um armazém, diz que sentia como se "não houvesse nenhuma maneira de participar" das conversas que todos os outros pareciam estar curtindo.

Então, há dois anos, ele trocou a cerveja por remédios vendidos com prescrição médica que descobriu nas redes sociais.

Ao se preparar para sair em uma sexta-feira, Matt, cujo nome foi alterado, toma um medicamento que compra ilegalmente online, geralmente usado para tratar epilepsia e dores nos nervos; além de um betabloqueador para diminuir a frequência cardíaca acelerada e relaxar os músculos trêmulos (sintomas físicos da ansiedade).

Ele diz que isso proporciona os efeitos do álcool sem a ressaca.

"A quantidade de álcool que você precisa beber para replicar os efeitos dessas substâncias é realmente prejudicial à saúde e não faz bem", diz ele. Matt afirma que as drogas que usa o deixam "eufórico", acalmam seus pensamentos ansiosos e facilitam a socialização.

Mas especialistas afirmam que o uso dessas drogas sem supervisão médica e em altas doses pode ser perigoso e, em alguns casos, fatal. O uso prolongado também pode levar à dependência; os usuários passam a depender delas para qualquer situação social. Eles também relatam aumento da ansiedade, insônia e pensamentos suicidas quando tentam interromper o uso.

Para Matt, que afirma já ter tentado terapia para tratar sua ansiedade social, o que começou como uma forma de lidar com noitadas agora se estende a encontros românticos e reuniões familiares. Sem os medicamentos, diz Matt, há muitas situações sociais que ele "nem se daria ao trabalho de tentar".

Matt nega ter se tornado dependente das drogas.

Em todo o mundo, as evidências mostram que os jovens estão recorrendo a medicamentos e substâncias experimentais como alternativas ao álcool. Algumas delas vêm em forma de comprimido — como a pregabalina e o propranolol, que Matt toma. Outras são injetáveis — como os peptídeos, um tipo de proteína que está se tornando cada vez mais popular na internet.

Isso faz parte de um esforço para conter a ansiedade social, que parece afetar a Geração Z de forma particularmente acentuada: mais de um quarto (28%) das pessoas com pouco mais de 20 anos na Inglaterra relatam altos níveis de ansiedade, de acordo com um estudo publicado no ano passado pela University College London, que constatou que doenças mentais graves são muito mais comuns entre os membros da Geração Z do que entre os millennials na mesma faixa etária.

Essa tendência está alarmando os cientistas e levando-os a questionar por que alguns jovens adultos sentem que só conseguem socializar com o auxílio de substâncias químicas.

A 'geração sóbria'

A busca por alternativas "mais saudáveis" ao consumo de bebidas alcoólicas ajudou a criar um novo mercado para substâncias divulgadas nas redes sociais como drogas sociais sem a ressaca.

Elas são vistas como a "alternativa mais limpa e segura", diz Liam Knowles, pesquisador de dependência química da Universidade de Teesside. "[Os usuários] não se sentem tão mal no dia seguinte e é um medicamento — então as pessoas pensam que é mais seguro."

É difícil saber exatamente quantos jovens estão usando remédios que necessitam prescrição médica e peptídeos não regulamentados para socializar, já que muitos os obtêm sem receita médica. Knowles acredita que "provavelmente há um número considerável de pessoas que estão se tornando viciadas".

Hashtags relacionadas aos medicamentos geram milhares de vídeos em plataformas de mídia social, com usuários sendo incentivados a criar seus próprios coquetéis de medicamentos, conhecidos online como "stacking".

O crescente interesse nessas substâncias surge à medida que os jovens adultos evitam cada vez mais o álcool, o que rendeu à Geração Z o apelido de "geração sóbria". Os mesmos influenciadores que divulgam os benefícios dessas "combinações" também recomendam evitar o álcool.

Uma pesquisa realizada no ano passado pela organização beneficente Drinkaware revelou que 26% dos jovens de 18 a 24 anos no Reino Unido não consumiam álcool, em comparação com 7% em 2012.

Entretanto, a professora Emily Jones, psicóloga do King's College London, acredita que a pandemia da covid pode ter contribuído para o aumento da ansiedade social, particularmente entre os jovens.

"O isolamento social, na prática, ensinou a todos a ter medo da interação social", diz ela.

Para os jovens que desejam experimentar, a pregabalina tornou-se um foco particular.

Um estudo publicado na revista Nature Communications estimou que o consumo global da droga mais do que quadruplicou entre 2008 e 2018.

Entretanto, também houve um aumento acentuado nas mortes relacionadas à pregabalina. Dados do Escritório Nacional de Estatísticas mostram que a pregabalina foi mencionada em 2.360 certidões de óbito por envenenamento relacionado a medicamentos na Inglaterra e no País de Gales entre 2020 e 2024, em comparação com 768 entre 2015 e 2019.

Uma dessas mortes foi a de Alex Cottam, um engenheiro de software de 27 anos de Eccles, descrito por sua mãe, Michelle, como "adorável, inteligente e popular".

Ele tinha prescrição de pregabalina para tratar sua ansiedade, mas sua mãe diz que ele "ficou viciado" e começou a aumentar seu estoque comprando a droga em sites ilegais.

"Não consigo parar de pensar todos os dias que a pregabalina matou meu filho", disse ela à BBC em 2024.

Na Inglaterra, a pregabalina foi reclassificada como droga controlada de Classe C em 2019: quem a compra sem receita médica pode ser condenado a dois anos de prisão (embora, na prática, poucas pessoas sejam presas). Ela continua sendo amplamente prescrita para epilepsia, dor neuropática e ansiedade. Os consultores independentes de drogas do governo do Reino Unido também iniciaram uma revisão para examinar o uso indevido.

Na Jordânia, Ucrânia e Índia, pesquisadores também observaram um aumento no abuso de pregabalina.

Na China, o governo intensificou o controle sobre o medicamento no início deste ano, proibindo a maior parte das vendas online e estabelecendo limites para a quantidade que pode ser fabricada em cada província.

Mídias sociais

Matt ouviu falar pela primeira vez sobre os medicamentos por meio de Braden Peters, mais conhecido como "Clavicular", um influenciador controverso que falou abertamente em transmissões ao vivo sobre o uso desses remédios como parte de uma "combinação" para reduzir sua ansiedade social.

Os medicamentos entraram no debate público. As atrizes Rachel Sennott e Kristen Bell estão entre as celebridades que falaram publicamente sobre o uso de betabloqueadores, assim como a influenciadora Khloé Kardashian.

A pregabalina, especialmente em doses superiores às prescritas, pode causar relaxamento e euforia nos usuários, uma sensação semelhante à de estar embriagado.

Para Mei, uma estudante universitária chinesa de 20 anos, cujo nome foi alterado, eram esses os efeitos que ela buscava.

Ela diz que as drogas aliviam seus sintomas físicos de ansiedade e podem fazê-la se sentir "eufórica". Ela começou a tomá-las para festas. "Era como se eu pudesse ser a pessoa mais interessante da sala", diz ela.

E as redes sociais não parecem estar apenas apresentando essas substâncias aos jovens – elas também podem ajudá-los a obtê-las. Nossa pesquisa descobriu influenciadores vendendo alguns desses medicamentos em sites vinculados às suas redes sociais.

Mei diz que comprou o remédio por meio de uma plataforma de mídia social chinesa. "Há milhares de postagens vendendo", afirma.

 

Gostou desta notícia?
Participe do nosso grupo no WhatsApp e fique por dentro de todas as novidades!
320 x 100px.png BLOG GUSTAVO NEGREIROS - 626x522.png 400x400px.gif GUST_NEGREIROS_REFIS_626x522.gif Banner_Festa_da_Liberdade_400x400px.gif GUST_NEGREIROS_626x522_CEARA.gif IRN-campanha-check-up-masculino-blog-do-gustavo-negreiros-mobile-400x400px.gif BANNERS-GN_317X264_ORATHORIA.gif BANNER_400X400_GUSTAVO.png 96 - FM - depois do post

0 comentários para "'A geração sóbria': por que cada vez mais jovens trocam o álcool por remédios de ansiedade — e por que isso preocupa"

Deixe uma resposta para essa notícia

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

/1000.


Posts relacionados

Anuncie com a gente Documento com valores para anúncio

Mais lidas

  1. 1

    [VIDEO] Urgente: Carro da UFRN flagrado carregando material do PT

  2. 2

    Os 3 recados de Flávio Bolsonaro aos ministros do STF, se for eleito

  3. 3

    [VÍDEO] O preconceito de Lula contra mulheres e o silêncio da turma petista

  4. 4

    Fux susta decisão de Dino e retoma ordem contra fake news sobre Aparecida

  5. 5

    Lula baixo o nível total ao afirmar que mulheres aprendem desde cedo a levar "toque" no anus

360x96 Campanha facex.png