O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi orientado a adotar um tom mais duro para se descolar das investigações da Polícia Federal envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Em nova tentativa de blindar Lula, coordenadores da campanha petista têm pedido a ele que diga, com todas as letras, que nenhum pai pode ser responsabilizado por ações de filhos maiores de idade.
É, na prática, uma nota acima do genérico “doa a quem doer” usado pelo presidente. Apesar da pressão, Lula ainda resiste, sob o argumento de que não pode parecer que já condenou o seu primogênito.
Suspeito de praticar tráfico de influência no governo, em sociedade com a lobista Roberta Luchsinger, Lulinha responde a três inquéritos e virou o principal personagem de uma queda de braço entre a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Diante da resistência do presidente em fazer uma inflexão mais forte no discurso, a campanha do PT vive momentos de impasse. O endurecimento do tom, porém, é visto como necessário para que o potencial escândalo não contamine a candidatura ao quarto mandato.
A ideia é que Lula assuma uma posição mais firme na entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, marcada para quinta-feira, 27, véspera do início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão. Enquanto isso, o PT se encarrega de cobrar explicações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do presidente, pelo pedido de US$ 24 milhões – o equivalente a cerca de R$ 134 milhões – feito por ele a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Antes de ser preso, Vorcaro fez repasses que totalizaram R$ 61 milhões e Flávio sustenta até hoje que o dinheiro foi para financiar o filme Dark Horse, longa-metragem sobre a vida de Bolsonaro, que não saiu do papel.
Um forró com a artilharia contra Flávio, incluindo a acusação de “rachadinha” quando o senador era deputado estadual no Rio, começou a ser compartilhado nesta terça-feira por aliados de Lula em grupos de WhatsApp. “Quem pediu para o Daniel Vorcaro R$ 61 milhões para fazer o filme do pai?”, pergunta o cantor. O coro responde em uníssono: “Foi o Flávio Bolsonaro”.
O tema Lulinha entrou nas reuniões do presidente com coordenadores de sua campanha, ontem e nesta terça-feira. Alvo de “fogo amigo” de petistas ligados ao ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola – defenestrado na esteira de denúncias –, o ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira, participou do encontro de segunda.
Até agora, Lula concordou com uma parte da estratégia planejada: demarcar diferenças de comportamento entre ele e o ex-presidente Jair Bolsonaro no que diz respeito a como proceder em relação a denúncias contra os filhos.
Na prática, tudo o que o petista vem dizendo tem o objetivo de fazer um contraponto com Bolsonaro, que, em reunião ministerial de 22 de abril de 2020, chegou a afirmar que iria interferir onde precisasse para proteger sua família.
“Eu não vou esperar f a minha família toda, de sacanagem”, resmungou ele. “Troca o ministro! E ponto final!” Dois dias depois, o então ministro da Justiça Sérgio Moro – algoz de Lula no processo da Lava Jato – pediu demissão. Saiu atirando e acusou Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal.
Estadão