Como ser o candidato da mudança quando já se governou o País por quase doze anos? Como ser ao mesmo tempo aquele que pretende corrigir o sistema político, mas se rende a ele constantemente? Como vencer a resistência do setor produtivo enquanto se levanta a bandeira de um partido desgastado pelos escândalos passados e presentes e que pressiona pela heterodoxia econômica?
Na convenção nacional do PT realizada neste domingo, 2, em São Paulo, o presidente Lula recorreu aos seus trunfos conhecidos para tentar se desvencilhar das contradições que envolvem o seu projeto de reeleição — e, no processo, acabou por tornar muitas delas ainda mais evidentes.
Que trunfos são esses? A linguagem simples, a trajetória pessoal singular, a imagem de pai dos pobres e o mito da pureza política. Os trunfos de sempre, portanto, e em grande medida desgastados. Mas, contra um campo opositor que comete mais erros do que acertos, pode até funcionar novamente.
Lula gastou boa parte do discurso de pouco mais de uma hora com elogios a si próprio e à sua gestão. Enalteceu bastante os companheiros — não só os companheiros de partido de longa data, mas também os que chegaram depois e que foram adversários, como o seu vice, Geraldo Alckmin (PSB).
A longa digressão que fez sobre a fundação do PT, a importância do partido após a redemocratização e as lideranças históricas que ele apoiou ou enfrentou em momentos distintos (Fernando Henrique Cardoso, Cláudio Lembo, Mário Covas, etc.) serviu ao duplo propósito de resgatar a imagem do PT e de apresentá-lo como um homem de diálogo, afeito à moderação. O sindicalista “puro”, como ele mesmo se descreveu, que enveredou pela política.
E o Partido dos Trabalhadores descrito por Lula obviamente não foi o PT das roubalheiras, mas aquele que, na versão do presidente, suplantou a esquerda revolucionária e evoluiu para ser uma legenda de esquerda pragmática, unindo as outras vertentes.
Transparecia, porém, em outros pontos do discurso, o custo do projeto hegemônico do partido e do personalismo lulista para a capacidade de renovação de lideranças da esquerda. O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, disse Lula, poderia ser o seu sucessor, mas só depois de governar São Paulo. Para isso, precisa primeiro vencer uma dura disputa eleitoral contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mas outros nomes podem surgir de outros estados, disse Lula. Quais, mesmo?
Lula instou a militância petista, como fez outras vezes, a usar os argumentos certos para convencer eleitores independentes a votarem nele. Bolsonaristas, dizem o presidente, são o que são e não vão mudar. Quais argumentos? Defender “com orgulho” tudo o que governo petista fez até agora. Mostrar que ele é o guardião da democracia. Provar que ele é o candidato dos interesses femininos, pois o eleitor que “bater na mulher, não precisa votar em mim”. E porque, no que se refere às ações do governo, “o básico está garantido” e que daqui para frente vai ser “revolução na educação” e muito mais.
Ele não quer mais ser visto apenas como o presidente do Bolsa Família. “A minha quarta presidência vai ser para mudar muita coisa no País; a gente vai ter que ser mais ousado”, disse Lula, deixando implícita a dúvida: “O que o impediu de ser mais ousado nos últimos três anos e meio? Por que a revolução na educação só virá agora?”
Parece que a culpa é do Congresso, com quem Lula disse que vai brigar por causa da farra das emendas parlamentares. É de se perguntar como, se a próxima legislatura tende a ser ainda mais dominada pela oposição bolsonarista e por forças do Centrão. Mas, o que é isso, Lula afirma estar de fato disposto a corrigir o sistema em seu quarto mandato. Promete até mexer no fundo partidário! Pois ele gostava mesmo era quando o partido dele “tinha que vender camiseta para fazer o próximo comício”. Um pouco de demagogia pelo visto não faz mal a ninguém.
Nenhuma palavra em defesa de responsabilidade fiscal, é claro, mas muita firmeza em um tema caro à direita, pois Lula promete investir muito, mas muito mesmo, na indústria da defesa, pois não dá para proteger as fronteiras a pé e porque há, supostamente, ameaças externas bem concretas. O presidente parece acreditar que até pode ser sequestrado de dentro do Palácio do Planalto, à semelhança do que as forças americanas fizeram com o ditador venezuelano Nicolás Maduro.
Aqui, as recentes tentativas de interferência dos Estados Unidos e da Argentina no processo eleitoral brasileiro vieram bem a calhar. Soberania nacional, proteção das riquezas naturais e minerais e armar-se para garantir a paz tornaram-se temas da campanha petista. A militância precisa deixar de lado o “preconceito” com a pauta da defesa que tem por causa da ditadura, disse Lula.
Lula campeão da soberania nacional, Lula da mudança, Lula antissistema, Lula do PT imaculado. Às vezes, é preciso fazer contorcionismo com a lógica para fazer crer que certas contradições não existem.
Diogo Schelp Estadão