O Brasil assiste, nas últimas semanas, a um episódio que deveria estar estampado nas manchetes com um nome muito específico — mas não está. A crise envolvendo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, tem uma origem concreta e gravíssima: segundo a própria decisão do ministro André Mendonça, do STF, a Diretoria de Inteligência Policial da PF produziu, entre 3 e 31 de agosto de 2026, ao menos seis relatórios monitorando sistematicamente a atuação do próprio ministro e do advogado-geral da União, Jorge Messias.
Mendonça classificou a prática como "monitoramento sistemático e ilegal" e determinou o afastamento cautelar de Rodrigues e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa, além da abertura de investigações criminais e disciplinares.
A decisão foi referendada por maioria na Segunda Turma do STF, revertida no dia seguinte por Flávio Dino — que reintegrou ambos ao cargo —, e agora deverá ser levada ao plenário da Corte, com julgamento marcado para o dia 15 de setembro.
Os relatórios, segundo Mendonça, eram apócrifos, sem assinatura, e teriam sido produzidos a partir de provocação de um ministro da Primeira Turma — numa clara alusão a Alexandre de Moraes, que trocava mensagens com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro nas quais este pedia que Moraes intercedesse junto a Rodrigues para blindá-lo de investigações.
Por que isso é a "PF Paralela"
Aqui está o ponto que merece ser dito sem meias palavras: o que está sendo descrito não é uma disputa de bastidores entre autoridades — é o uso da estrutura de inteligência da Polícia Federal para monitorar, de forma clandestina, um ministro do Supremo Tribunal Federal e o chefe da Advocacia-Geral da União.
Isso é, estruturalmente, o mesmo desenho institucional que resultou no escândalo da "Abin Paralela" durante o governo Bolsonaro: o uso de um órgão de inteligência do Estado — que deveria atuar de forma apartidária e institucional — para vigiar adversários políticos, autoridades de outros Poderes e figuras entendidas como "hostis" a determinado grupo de poder dentro do próprio aparato de segurança.
Na Abin Paralela, a lógica era: usar a estrutura de inteligência do Estado para blindar um governo e atacar quem o contrariava. No caso atual, a lógica aparente é simétrica: usar a estrutura de inteligência da PF para proteger um ministro (Moraes) de investigações e monitorar quem representasse risco a essa proteção (Mendonça, Messias).
A diferença é apenas de nomenclatura — e é exatamente aí que está o problema.
Por que a imprensa evita o termo
Não é isento cognato chamar a Abin Paralela pelo nome que teve, mas hesitar em nomear este episódio como "PF Paralela". Há motivos evidentes para essa assimetria de tratamento:
1. O alvo político é diferente. A Abin Paralela vitimava adversários de um governo de direita; aqui, o suposto beneficiário do esquema é um ministro identificado com o campo progressista do STF. Batizar o caso com um nome tão evocativo poderia ser lido como equiparar Moraes a práticas que ele próprio historicamente combateu.
2. A complexidade do caso dificulta rótulos simples. Envolve uma disputa interna entre ministros do STF, tornando mais confortável para a cobertura tratar o assunto como "crise institucional" ou "crise entre Poderes" — termos mais neutros e menos incisivos do que "espionagem política via PF".
3. Efeito bumerangue. Ao nomear o episódio como "PF Paralela", a imprensa teria de admitir que a mesma lógica de instrumentalização de órgãos de segurança para fins políticos — condenada quando praticada pela direita — pode estar se repetindo, potencialmente beneficiando outro polo político.
O que está em jogo
Independentemente de quem seja beneficiado ou prejudicado, o princípio republicano violado é o mesmo nos dois casos: órgãos de inteligência e investigação do Estado não podem ser usados para monitorar autoridades por razões de disputa de poder interna. Se a Abin Paralela foi tratada — corretamente — como afronta à democracia, o mesmo padrão de rigor discursivo deveria se aplicar aqui.
Chamar as coisas pelo nome não é um exercício de oposição a este ou aquele ministro — é uma exigência de coerência jornalística e institucional. Se existe consistência entre denunciar o abuso de inteligência estatal quando ele serviu a um governo e normalizar quando serve a outro polo de poder, essa consistência está sendo seletivamente aplicada. E isso, no fim das contas, corrói mais a confiança nas instituições do que o próprio escândalo em si.