O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta terça-feira, 1, com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, para saber como seria conduzida a crise sem precedentes que tomou conta da Corte. A conversa ocorreu no Palácio da Alvorada, após serem reveladas trocas de mensagens entre o ministro do STF Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre o andamento das investigações contra o Banco Master.
Lula também esteve com o ministro Gilmar Mendes, decano do STF e um dos principais aliados de Moraes no tribunal. O presidente está consultando vários integrantes do STF com quem tem maior proximidade, como Cristiano Zanin e Flávio Dino.
Fachin relatou a Lula que continua ouvindo seus pares, na tentativa de encontrar uma saída institucional para o escândalo e estancar a sangria. Durante a conversa, ficou explícito que o presidente do STF está empenhado em proteger a imagem da instituição.
Nesta quarta-feira, 2, o magistrado prometeu tomar providências “nos próximos dias”, embora sem especificar quais nem quando. Fachin afirmou que o cargo de ministro “não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades, que devem ser observados com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao STF”.
Lula não se pronunciou até agora sobre a crise envolvendo Moraes porque ainda avalia como agir e, nas palavras de um auxiliar, espera a crise “decantar”.
De qualquer forma, como mostrou o Estadão, ele vai defender que todos devem ser investigados, a exemplo da posição adotada em relação a seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, alvo de três inquéritos da Polícia Federal por suspeita de tráfico de influência no governo.
Sob reserva, um dos coordenadores da campanha petista afirmou que o presidente “não vai jogar Moraes às feras” nem condená-lo por antecipação, mas irá “marcar um distanciamento” em relação às articulações do magistrado com Vorcaro.
A cúpula do PT está preocupada com o impacto do escândalo sobre a campanha de Lula. Desde a tentativa de golpe do 8 de Janeiro, Moraes tem sido um dos principais aliados do governo. O presidente chegou a se afastar do ministro do STF, porém, depois que ele ajudou a barrar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma cadeira na Corte, no fim de abril. Somente voltou a falar com Moraes no início do mês passado, quando ele promoveu um jantar para reaproximá-lo do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Coordenador da campanha de Lula, o presidente do PT, Edinho Silva, foi escalado pelo governo para adotar um tom duro ao falar sobre a crise, sob o argumento de que “ninguém está acima da lei”. O PT tenta, ainda, apontar a artilharia para o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL ao Palácio do Planalto.
“O sistema apodreceu”, disse Edinho, nesta quarta-feira, 2, em vídeo publicado nas redes sociais. “Ninguém está acima da lei, seja um cidadão comum, um governante, um parlamentar ou um integrante do Poder Judiciário”.
A estratégia dos petistas é destacar a ligação de Flávio com Vorcaro – banqueiro que está preso desde novembro, acusado de cometer uma fraude bilionária contra o sistema financeiro –, e cobrar a prestação de contas do filme Dark Horse, que conta a trajetória de Jair Bolsonaro.
Edinho também tem defendido a urgência de uma reforma do Judiciário. O tema consta do programa de governo de Lula para o quarto mandato, mas sem detalhamento.
A ordem na campanha de Lula também é insinuar que o ministro do STF André Mendonça, antagonista de Moraes, tem interesses eleitorais e, por isso, não quebra o sigilo de Flávio em relação ao caso Dark Horse. Mendonça foi indicado por Bolsonaro para compor a Corte.
Nesta quarta-feira, a newsletter Noites Húngaras divulgou que Mendonça recebeu Vorcaro, em março de 2025, na sede do instituto fundado por ele, em São Paulo.
O ministro confirmou o encontro, mas disse que a reunião foi para tratar do pagamento de precatórios, dívidas decorrentes de sentenças judiciais, e não do Banco Master.
Estadão