A campanha do candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, inicia nesta semana uma ofensiva contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O objetivo do filho 01 de Jair Bolsonaro é tentar cavar pelo menos uma condenação do petista por abuso do poder político e econômico, o que poderia torná-lo inelegível por 8 anos, independentemente do resultado das eleições de outubro.
Na mira das seis ações que o PL pretende apresentar ao longo da campanha eleitoral estão o desfile da Acadêmicos de Niterói, o pronunciamento de Lula no Dia Internacional da Mulher, o fim da taxa das blusinhas, o gasto com publicidade institucional e o uso de canais oficiais do governo para promover a administração petista.
O núcleo duro da campanha de Flávio pretende repetir contra o presidente da República a mesma estratégia usada pela campanha de Lula em 2022 contra Jair Bolsonaro (PL). O tipo de ação é o mesmo: as chamadas “ações de investigação judicial eleitoral”, conhecidas como “Aijes”, destinadas a apurar condutas que provoquem desequilíbrio na disputa, como o uso da máquina pública.
Foi no âmbito desse tipo de processo, por exemplo, que o TSE condenou Bolsonaro e o declarou inelegível até 2030 por promover uma reunião com embaixadores para atacar o sistema eleitoral. O ex-presidente também foi punido pela Corte Eleitoral em outra “Aije” por ter feito uso eleitoreiro das comemorações do Bicentenário da Independência, em 2022.
Na prática, essas ações funcionam como um instrumento de pressão e uma espécie de “faca no pescoço” do adversário. Se Lula for reeleito, governa por mais quatro anos com a ameaça de ser cassado pelo TSE, que pode a qualquer momento desengavetá-las ou arquivá-las, a depender do clima e das conveniências políticas do momento.
Se, por outro lado, Lula não conseguir um quarto mandato, os processos podem servir para afastá-lo mesmo assim da disputa eleitoral até 2034, quando ele terá 88 anos de idade.
“A ideia é registrar o maior exemplo de uso da máquina pública nas eleições a favor de um candidato”, disse ao blog um integrante do núcleo duro da campanha de Flávio.
O PL pretende ajuizar mais de seis ações, cada uma focada num episódio específico, como se fosse uma história narrada em “diversos atos” de supostas irregularidades cometidas pela administração petista para garantir a reeleição de Lula.
“Não tememos nada, estamos completamente dentro da lei. Podem processar o quanto quiserem que não fizemos nada de errado”, disse à equipe do blog o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira.
Carnaval volta à tona
A primeira dessas ações, a ser apresentada nesta semana, gira em torno do controverso desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula no carnaval deste ano. A agremiação apostou num enredo considerado de apelo popular para surfar na campanha petista pela reeleição, mas amargou a última colocação e acabou rebaixada.
O petista compareceu na Marquês de Sapucaí e a primeira-dama Janja chegou a ser convidada para desfilar, mas desistiu após as críticas da oposição e o temor de aliados de que a presença dela poderia dar munição a contestações na Justiça. Como se viu, de nada adiantou.
Patrocinado com dinheiro público das prefeituras do Rio, de Niterói, do governo do Rio e da Embratur, o desfile na Marquês de Sapucaí já é alvo de representações movidas pelo Novo e pelo Missão, que podem levar Lula a ser multado por propaganda eleitoral antecipada. Como mostrou o blog, contudo, ambas as ações estão travadas no TSE devido à dificuldade de citar formalmente a escola, que ainda não foi encontrada pela Justiça em seus endereços oficiais.
A diferença, agora, é que com a Aije, considerada uma ação de maior fôlego, o PL pretende pedir produção de provas e levar à cassação e à inelegibilidade de Lula.
O enredo contou a trajetória de Lula a partir da infância até chegar à Presidência da República e não dispensou críticas a Bolsonaro, retratado na comissão de frente como um palhaço que acaba preso. O desfile foi marcado pela exaltação à figura de Lula e a programas sociais da administração petista, como o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e o Luz para Todos. O samba-enredo remetia em seu refrão a um jingle de campanha de Lula, com os versos "Olê, olê, olá, Lula, Lula".
Em uma das alas, componentes estavam fantasiados com uma estrela vermelha, em alusão ao símbolo do PT. Em outra, a escola fez uma crítica ao conservadorismo — um dos segmentos mais contrários a Lula —, com famílias representadas dentro de latas de conserva que ironizavam os evangélicos, o agronegócio e os defensores da ditadura militar.
Publicidade e ‘pacote de bondades’
Uma segunda ação que está nos planos do PL vai se voltar contra o pronunciamento do presidente na véspera do Dia Internacional da Mulher, quando destacou iniciativas do governo como o Pacto Nacional Contra o Feminicídio, a ampliação da Casa da Mulher Brasileira e a criação de benefícios sociais como o Gás do Povo e o Pé-de-Meia.
A campanha de Flávio também pretende questionar os gastos do governo com publicidade institucional. No início do mês passado, o TSE determinou que Lula e o ministro da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, apresentassem todos os empenhos relacionados a esse tipo de propaganda desde o início do atual mandato.
A medida, determinada pelo ministro André Mendonça em caráter liminar, foi feita com base em uma representação protocolada pelo próprio PL. Após ser submetido ao plenário, o julgamento foi interrompido por conta de um pedido de destaque do ministro Floriano de Azevedo, e, até o momento, não há data para uma nova sessão.
Outra ação será dedicada ao chamado “pacote de bondades” do governo, termo utilizado para se referir às medidas lançadas por Lula para estimular a economia, como os programas Desenrola e Move Brasil.
O entorno bolsonarista também defende que a suspensão da chamada “taxa das blusinhas”, sancionada por Lula em agosto de 2024, teria motivações eleitorais. Nesta quinta-feira (3), após uma intensa articulação do governo com o Congresso, a Câmara aprovou a medida provisória (MP) que põe fim à cobrança.
O imposto de 20% para compras internacionais de até US$ 50 gerou críticas de parte da população à gestão petista por, apesar de ser defendido por entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI). A MP também estabelece que o Ministério da Fazenda pode alterar as alíquotas caso julgue necessário, o que, segundo o PL, implica na possibilidade do governo reaver a cobrança caso vença as eleições. Em maio, à CNN Brasil, Dario Durigan disse que o tributo “serve para regular o mercado” e, por isso, pode voltar “se necessário”, o que tem sido apontado por aliados de Flávio como mais um indício dos fins eleitoreiros da medida.
Malu Gaspar - O Globo