Entrar no portão do Porto Brasil é atravessar uma fronteira invisível. Do lado de dentro, poder, dinheiro e gente querendo ser vista. A desigualdade social aparece rápido: basta olhar para o Villa Imperial, a periferia gourmet do paraíso.
O dia começa cedo, por volta das 9h. Escolher o look de ginástica é mais importante que malhar. Proprietário vai pra academia. Inquilino caminha, nada ou finge que faz esporte. O suor é opcional, a selfie é obrigatória.
Às 11h, as mulheres entram na fase escova, maquiagem e circulação estratégica. É desfilar. Alguns descem para a praia do Lamartine. Comer? Nem pensar. Barriga vazia valoriza o corpo e a roupa.
13h é oficialmente a hora de beber. Antes, troca de look. Até o ano passado bebia-se de verdade. Hoje, com Mounjaro, o copo Stanley tem chá, gelo e pose. Ressaca é coisa de pobre.
O fenômeno mais surreal do Porto Brasil são as mesas postas. Louça bonita, guardanapo dobrado, talher alinhado. Falta só o detalhe essencial: comida. Nunca vi mesa posta com cozido, caldo, peixe frito ou pirão. Aqui comida é conceito, não sustância.
Quando tem chef, é nas casas, Sagres e Villa Real. Um quilo de filé vira refeição para dez pessoas. Porções microscópicas, muita conversa e fome coletiva. No Villa Colonial e no Villa Imperial, não tem comida.
Às 17h vem outro look. É o tal do sunset. Mais maquiagem, roupa mais apertada, menos comida. O dia termina num after. E durante todo esse ritual, pais e mães circulam de casa em casa procurando algo sólido para alimentar os filhos.
No Porto Brasil, o dia é longo, bonito e instagramável. Só não mata a fome de ninguém.