O fator que dificulta pacificação de Michelle Bolsonaro e aliados com Flávio
Em meio à guerra deflagrada no clã Bolsonaro, uma das principais queixas no entorno da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) é a de que o pré-candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (RJ), até agora não veio a público repudiar os ataques contra as duas vindas de aliados que estão nos Estados Unidos.
Nos bastidores, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), aliada e amiga próxima da ex-primeira-dama, endossou a reclamação e sinalizou seu desconforto com o fogo amigo dentro do bolsonarismo. Ela também é alvo de ataques nas redes sociais.
“Flávio poderia ter deixado claro que esse não é o pensamento da campanha, mas não fez isso”, queixou-se um aliado de Michelle ouvido pela equipe do blog.
A saída da ex-primeira-dama da presidência do PL Mulher sacramentada na última terça-feira (30) e os rumores de que ela pode desistir da pré-candidatura ao Senado pelo Distrito Federal agravaram a crise na direita bolsonarista. Além de refletir o desconforto de Michelle com a continuidade da ofensiva nas redes, a renúncia torna ainda mais distante a possibilidade dos dois lados abreviarem a crise.
Entre os bolsonaristas no exterior que têm alimentado a cizânia está o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL), seu aliado Paulo Figueiredo, que se apresentou como porta-voz do presidenciável durante sua viagem aos EUA, e Allan dos Santos.
Em um vídeo postado no dia seguinte à manifestação de Michelle, Figueiredo disse que Michelle e Damares são feministas, disse que “mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente as solteiras” e insinuou ter informações comprometedoras sobre a relação da ex-primeira-dama com o marido.
"Vocês não têm vontade de cortar um pouquinho os pulsos, só para ver o que acontece, toda vez que ela fala meu galego? Não soa fake? Principalmente se vocês soubessem as coisas que eu sei”, afirmou Figueiredo.
A rede de ataques a Michelle também conta com outros bolsonaristas no exterior como o influenciador Kim Paim, que vive na Austrália, e o blogueiro Oswaldo Eustáquio, que está na Espanha.
O grupo e outros perfis frequentemente compartilhados por aliados de Eduardo se referem à ex-primeira-dama pelo nome de solteira, Michelle Firmo, em uma tentativa de isolá-la do projeto de poder da família. A estratégia irritou a mulher de Jair Bolsonaro.
No vídeo de 27 minutos divulgado na última quarta-feira, a ex-primeira-dama se referiu a eles como um “grupo do exterior”.
“O grupo coordenado por pessoas que estão no exterior continua atuando e me atacando todos os dias. Alguns deles até aparecem em fotos ao lado de Flávio, fazem publicações e vídeos retirando o sobrenome Bolsonaro do meu nome numa tentativa de me atingir. Não me atingem. Eu sei quem eu sou e sei quem é meu marido”, afirmou.
Desde a manifestação de Michelle, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e a própria Damares se colocaram como “bombeiros” da crise. Mas os esforços até agora não surtiram efeito.
Isso porque, mesmo após Flávio e Michelle sinalizarem uma trégua na semana passada em seus perfis nas redes sociais, os ataques dos aliados “autoexilados” do presidenciável não cessaram ao longo dos últimos dias.
O próprio Flávio veio a público com um discurso de deixar “pequenas diferenças de lado” e “estarmos cada vez mais unidos”, mas não recriminou publicamente os ataques nas redes sociais contra a madrasta e a ex-ministra dos Direitos Humanos.
Desde então, o próprio Eduardo Bolsonaro, que chegou a viajar com Michelle para a posse de Donald Trump representando Jair Bolsonaro, já disparou nove postagens com referências diretas e indiretas à madrasta, entre tuítes próprios e de terceiros.
O último publicado até o fechamento dessa matéria alfinetou tanto Michelle quanto Valdemar. Em resposta ao cacique do PL, que declarou à Folha de São Paulo na última segunda que a eleição de Flávio “vai ficar muito difícil se perdermos a Michelle”, Eduardo sugeriu que Michelle jamais se empenhou pela candidatura do enteado.
“Como se perde algo que nunca se teve?”, escreveu o ex-parlamentar.
Pé de guerra
Entre integrantes do PL ouvidos reservadamente pelo blog, há o temor de que a guerra intestina no clã Bolsonaro produza efeitos mais nocivos à campanha de Flávio do que os desdobramentos das investigações do caso do Banco Master, que trouxeram à tona áudios do senador pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro supostamente para financiar o filme “Dark Horse”.
Isso porque o tiroteio nas redes sociais traz à tona questões como machismo e misoginia, além de escancarar as fissuras internas da família Bolsonaro, o que pode afugentar o eleitorado feminino, onde Flávio enfrenta mais rejeição que Lula.
“O esquema do Vorcaro não tinha ideologia e vai pegar da esquerda à direita. Agora, a crise Michelle tem um efeito mais permanente”, comenta um interlocutor de Bolsonaro ouvido reservadamente pelo blog. “Numa eleição, você vende a ideia de uma família exemplar, e o que temos aqui é uma família em pé de guerra.”
A guerra, pelo visto, está longe de terminar.
Malu Gaspar - O Globo