Entre os episódios mais marcantes da CPMI do INSS, um se destacou pela ironia ácida e pelo impacto político: o momento em que o relator Alfredo Gaspar (PL-AL) resgatou, em plena sessão, uma frase histórica do então ministro do STF Luís Roberto Barroso, hoje aposentado, sobre seu colega de Corte, Gilmar Mendes.
O episódio ocorreu em 27 de março, durante a reunião em que a CPMI aprovaria o relatório final, com proposta de indiciamento de mais de 200 pessoas envolvidas no esquema de fraudes contra aposentados do INSS. Em meio ao clima de tensão que já dominava a sessão, marcada por acusações cruzadas entre parlamentares, Gaspar decidiu ler um trecho de um discurso feito por Barroso em 2018, no plenário do próprio Supremo, no qual o ministro classificava Gilmar Mendes como "uma pessoa horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia".
Ao apresentar a declaração, Gaspar tratou o texto com ironia, chamando-o de "poesia", numa provocação direta ao ambiente de embates internos que também marca a relação entre ministros do STF. A leitura gerou reação imediata na sala: parlamentares da oposição aplaudiram o relator, enquanto integrantes da base governista criticaram duramente a atitude, ampliando o bate-boca que já se desenrolava com o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ).
O momento se tornou ainda mais simbólico por ocorrer na mesma sessão em que Gaspar leu o relatório final da CPMI e, paralelamente, foi acusado por Lindbergh e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) da prática de um crime hediondo, episódio que também gerou repercussão nacional. Diante das acusações, o relator chegou a declarar, na própria reunião: "Na hora em que eu estava lendo o relatório, estavam dois parlamentares me acusando de um crime abjeto. Eu estou à disposição para quaisquer esclarecimentos, inclusive DNA, se assim entenderem cabível."
A citação à frase de Barroso não ficou restrita ao momento político da CPMI. Gaspar posteriormente ingressou com ação no STF contra Lindbergh e Soraya por conta das acusações recebidas naquela sessão, processo que, por sorteio, coube justamente a Gilmar Mendes, o ministro que havia sido alvo da "poesia" lida pelo relator semanas antes, num desfecho tão irônico quanto o próprio episódio que o originou.