A denúncia é grave e preocupante: Jovens de Natal e João Pessoa estão sendo detidos sob suspeita de praticar pequenos furtos.
E sabem o motivo? Influenciados pelas redes sociais
Assistam ao vídeo com esse relato preocupante:
Uma matéria divulgada no Estadão tratou a respeito do assunto.
Leia a íntegra:
Furtar vira ‘moda’ na internet e banaliza cleptomania, doença séria que demanda tratamento
O perfil de Juliana segue o padrão de muitos jovens envolvidos na comunidade #clepto, uma referência à cleptomania, transtorno psiquiátrico marcado por uma vontade incontrolável de furtar: a foto de perfil é um personagem de anime (animação japonesa) e, em sua descrição, ela usa emojis de rato e mirtilos, símbolos utilizados para identificar e unir aqueles que também costumam compartilhar suas “colheitas” e “mirtilagens”: furtos geralmente realizados em perfumarias, farmácias, papelarias, supermercados e lojas de departamento.
É importante destacar que, no Brasil, o furto — definido como “subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel” — é classificado como crime, conforme o Código Penal, e pode resultar em pena de reclusão de um a quatro anos, além de multa.
Apesar disso, a troca de informações entre os “mirtileiros” ocorre de forma pública e sem qualquer pudor, já que muitos perfis não são privados. Além de ostentar as aquisições ilegais, os participantes compartilham dicas sobre como despistar “formigas” (seguranças, no dialeto #clepto), desativar alarmes em roupas, enganar vendedores que realizam contagem de peças e evitar possíveis abordagens. Também são compartilhadas indicações de lojas consideradas fáceis de furtar, horários menos vigiados, sugestões de vestimentas para passar despercebido e tutoriais detalhados sobre o que fazer ou não em caso de flagrante, geralmente escritos por pessoas que já passaram por essa situação.
Embora a tendência não seja exclusivamente brasileira, marcando presença também em países como Espanha e Estados Unidos, as “mirtilagens” têm gerado repercussões inusitadas por aqui. Com mais de 100 mil visualizações no YouTube, uma música chamada “Clepto Girls” fala sobre as garotas do movimento, que geralmente furtam roupas e lingeries rendadas, itens da cultura japonesa (como mangás), ursos de pelúcia e produtos de skincare. Alguns itens, como objetos da Hello Kitty e brinquedos da linha Sylvanian Families, são verdadeiras tendências entre elas. “Me chamam de problema, mas quem vai julgar, se é tão fácil pegar e sair sem pagar?”, diz a letra da música, que tem inspirado coreografias no TikTok.
Ao Estadão, Camila (nome fictício) conta que o movimento #clepto começou no X (antigo Twitter). Segundo ela, antes da suspensão da rede social, os posts sobre furtos eram ainda mais frequentes, e algumas pessoas se tornaram conhecidas justamente por isso, ganhando o status de veteranos ou, em alguns casos, de “clepto mommy” (algo como “mamãe clepto”). Camila também relata que a maioria dos participantes têm entre 13 e 20 anos e não enfrenta dificuldades financeiras, pertencendo majoritariamente à classe média alta. “No meu caso, comecei a furtar depois de ver outras pessoas fazendo. Os posts me deram segurança, parecia algo fácil”, contou Camila, que preferiu não revelar sua idade, mas afirmou estar respondendo à reportagem diretamente da escola.
Alana (nome fictício), por sua vez, relata que começou a furtar aos 13 anos, pouco antes de se unir ao grupo nas redes sociais. “No começo, eu pegava uma coisinha ou outra, tipo um óleo de cabelo ou um chocolate, mas não compartilhava”. Na última foto que postou no Bluesky, no entanto, ela mostra itens de papelaria, produtos de cabelo e skincare, além de doces importados, totalizando R$ 900 em furtos. “Agora que já completei quase todos os itens da minha lista de metas, pode ser que eu pare logo, porque, no fundo, vai contra meus ideais”, conta Alana, que diz não saber se é cleptomaníaca ou não.
Questionada sobre suas motivações, ela diz que gosta de compartilhar experiências com outros “mirtileiros”, e também se diz motivada pelas “falhas no sistema capitalista”. “É um sistema bizarro que te faz pagar um valor altíssimo por um produto de qualidade boa, mas não excelente. Ou a gente rala, ou a gente furta”, afirma. Ela também informa que, apesar de não ser uma regra, a maioria dos participantes evita furtar em lojas pequenas. “Os donos dessas grandes lojas são milionários, não faz diferença para eles. Agora, nas lojas menores, nem penso em pegar nada. Sou até amiga das vendedoras”, compartilha Alana.