Por Fabiano Pereira
“A pessoa que não tem vício, não tem noção da violência da vontade.”, sentenciou Luiz Felipe Pondé.
O vício exerce uma influência muito poderosa no cérebro e se manifesta de três maneiras distintas: Desejo para o objeto do vício, perda do controle sobre seu uso e envolvimento contínuo com ele, apesar das consequências adversas já conhecidas pela pessoa viciada.
Se a pessoa precisa do álcool para “funcionar” ou para aliviar os sintomas de tristeza, ansiedade, agitação, entre outros, provavelmente se tornou alcoólatra. Se, na ausência do álcool, aparece a fissura, que é o principal sintoma da abstinência, o diagnóstico é irrefutável.
Com um pouco de atenção é fácil perceber que estamos impotentes, priorizando a substância e, que, em função disso, nossa vida está incontrolável. A única alternativa é procurar ajuda e ir em busca de um tratamento sério para o alcoolismo.
Ninguém inicia o hábito do álcool recreativo ciente do risco de ser dependente, mas poderá acabar nessa armadilha inesperadamente.
A maior agrura de todas, e infelizmente muito comum, é não olhar de frente para o problema. Pessoas alimentadas pelo ego e pela autossabotagem, com baixa tolerância a frustração e, geralmente, com estilo de vida movido por emoções narcisistas, negam veementemente o vício, mantendo comportamentos cada vez mais autodestrutivos. A propósito, conheço muitas com esse perfil.
Nesse mês de dezembro de 2024, quando completei 60 anos, me presenteei com uma experiência incrível. Me internei trinta dias, por interesse próprio, mas obviamente com o aval da esposa e filhos, numa afamada clínica paulista especializada em tratar de adicção, em todos os níveis possíveis e imaginários.
Como lá existe de tudo. de tudo mesmo, e eles não sabem real histórico de quem estão recebendo, o clima dos primeiros dias é bem tenso, embora não existam maus-tratos.
A primeira informação que recebemos é brutal e devastadora: só 3% dos adictos não recaem! A adicção é uma doença incurável, progressiva e fatal, segundo a Organização Mundial de Saúde. As irmandades de AA (alcoólicos anônimos) e NA (narcóticos anônimos) também confirmam essa desoladora estatística.
Portanto, enganam-se profundamente aqueles que se internam ali e acham que sairão “mijando água benta”! O buraco é bem mais abaixo.
Meu grupo era formado por trinta e poucas pessoas. Viciados só em álcool, como eu, se contava nos dedos de uma só mão, talvez na esquerda do nosso presidente.
A grande maioria usa muitas substâncias ao mesmo tempo. São conhecidos em tom de brincadeira, como os “totais flex”. As histórias são incríveis, sendo algumas inimagináveis, inacreditáveis. mas, outrossim, o que mais me chamou a atenção, foi o uso abusivo e indiscriminado de remédios tarja preta e alguns até de uso veterinário, misturados com álcool e outras drogas, como cocaína, etc. Foi um grande aprendizado. Conheci um mundo que não imaginava existir. Surreal!
Mas, nesse emaranhado de relatos tristes, assombrosos eu vi muita coisa bonita e promissora. A ajuda mútua era constante e muitas vezes comovente! Daria para fazer uma meia dúzia de crônicas para contar esses momentos de altruísmo.
A clínica promove com maestria a integração do grupo e com isso temos a sensação de pertencimento. Pesquisas em saúde mental no mundo têm mostrado que o pertencimento proporciona afetos positivos como segurança, autoestima elevada, alegria e solidariedade.
Esse sentimento de inclusão nos favorece um bem-estar psicológico e tem impacto na saúde fisiológica, fortalecendo o sistema imunológico e reduzindo o estresse.
Lá pude conhecer muita gente que, independentemente da quantidade de internações, vem vencendo a luta, com o apoio de todos que fazem a clínica, dos colegas de internação, das sessões de AA e NA, do terapeuta mentor, do padrinho escolhido e, sobretudo, do apoio da família.
Afinal, só vive o propósito quem supera o processo.
São vidas salvas! São vidas transformadas! As fotos do antes e do agora não deixam mentir. São de arrepiar!
A comunicação honesta e aberta consigo mesmo e com os outros é de fundamental importância. No entanto, é a fé num Poder Superior (Deus), da forma como cada um crê e compreende, o maior motor da mudança.
Para fechar, mesmo estando de frente com uma estatística tão desanimadora, nunca podemos esquecer que: Para todo “game over”, existe um “play again”