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Estudo: uso de IA como 'terapia' aumentou cinco vezes no Brasil em um ano

O uso da inteligência artificial como "terapia" no Brasil aumentou cinco vezes em um ano, segundo dados inéditos levantados pela agência de estudos de comportamento Talk Inc.

Em 2024, 1 em cada 10 usuários de IA procuravam chats para pedir conselhos e ajuda emocional. Em 2025, o número é de 1 em cada 2. É o equivalente a 43,5% da população.

A pesquisa "Inteligência Artificial na Vida Real" entrevistou 1.200 homens e mulheres maiores de 18 anos de diferentes regiões e de todas as classes sociais do país.

O resultado mostra um avanço acelerado no que os pesquisadores chamam de uso relacional da IA —quando a máquina entra em contextos sociais e emocionais substituindo interações humanas.

Ainda ampliando para a população brasileira, seguindo o perfil dos entrevistados, o salto em um ano foi de 12,6 milhões para 67 milhões de usuários se aconselhando com a máquina, segundo estimativa feita pelo UOL com base nos dados da pesquisa.

À frente do levantamento, a pesquisadora de comportamento e tendências Carla Mayumi acredita que o número deva aumentar ainda mais.

"Por três motivos: o primeiro é a falta de fricção desse tipo de uso. Não dá trabalho e não custa nada. O segundo é a câmara de eco que a IA gera. A máquina tende a responder o que a pessoa quer ouvir, parecendo 'empática'. É o contrário da amiga que fala umas verdades. O terceiro é as próprias empresas investirem nas IAs de companhia, que parecem criar um relacionamento com o usuário."

Maioria prefere IA a humano por objetividade e disponibilidade
Entre os motivos que levam os brasileiros a preterir um humano e conversar com a máquina, 72% apontam o pragmatismo.

Respostas diretas e objetivas, disponibilidade 24 horas por dia e mais rapidez e praticidade do que conversar com uma pessoa estão no topo das justificativas.

"Vi muitas histórias positivas, em que a pessoa aprende a se comunicar melhor e resolver uma questão cotidiana. Acredito que boa parte dessas questões não seriam dilemas levados para uma terapia, como no caso da dúvida 'como eu respondo melhor essa pessoa?'", aponta.

"O lado negativo são os casos extremos. Pessoas com comportamentos psicóticos desenvolvidos a partir de conversas com a IA que as levam a acreditar em coisas que nem sempre são reais, inclusive sobre elas mesmas. E casos onde o problema psicológico é mais grave e que pode levar a um agravamento, até suicídio, como já aconteceu nos Estados Unidos."

Entre os entrevistados, 56% dizem procurar a IA para conversar por introversão: sentem mais liberdade ao falar com um chat e não precisam de "esforço social", como lidar com reações do interlocutor. Outros 26% apontam solidão como motivo principal.

"Perdi meu cachorro e usei o ChatGPT no luto. Não como psicólogo, mas para validar o que sentia. Ele me ajudou a botar os pés no chão", contou um entrevistado de 27 anos de Belém.

Outro, de 47 e de São Paulo, admitiu: "Uso IA para me analisar. Peço que avalie meus históricos e faço disso um gatilho para terapia".

O psicanalista André Alves, que foi entrevistado na pesquisa para analisar resultados, diz que o exemplo acima "chega na clínica toda semana".

"Pedi ao ChatGPT que escrevesse a mensagem para terminar com a garota", "para dizer o que eu tenho que fazer", ou "peguei o histórico de mensagem de dois anos com ele", exemplifica o terapeuta.

A alusão ao ChatGPT também não é à toa. De 2024 para 2025, a preferência pela plataforma da OpenAI subiu 24 pontos percentuais entre os brasileiros, de 50% para 74%.

Da planilha ao desabafo
A virada de chave é evidente. Em 2024, 63% dos brasileiros usavam alguma ferramenta de inteligência artificial, mas só 18% misturavam o uso pessoal e profissional.

Agora, 89% dizem usar IA, e 35% misturam trabalho e vida pessoal. A ferramenta deixou de ser curiosidade para se tornar rotina.

A tendência preocupa especialistas.

Como mostrou reportagem do UOL Prime de julho, a fronteira entre apoio emocional e dependência tecnológica está cada vez mais borrada.

A pesquisadora e professora Fernanda Bruno, coordenadora do Medialab, da UFRJ, chama o fenômeno de "cultura do auto": autoajuda, autodidata, autotratamento. Onde tudo é mediado por algoritmos.

O estudo ainda mostra indícios de que o problema pode ficar mais grave: 53% dos brasileiros admite ter medo de se tornar dependente da máquina.

O risco da falsa companhia perfeita

O estudo da Talk Inc identifica três níveis de relação com a IA: funcional (tarefas práticas), relacional (interações sociais) e simbiótico (quando a tecnologia substitui relações afetivas humanas).

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Também começa a se acender o alerta nesse último. Em 2025, 28% acreditam que casar com uma IA será uma realidade, e 17% já têm "amigos virtuais" artificiais.

O estudo ainda cita trechos de análises do psicólogo americano Paul Bloom, professor na Universidade de Yale, e autor de livros sobre empatia, moralidade e consciência.

"Isso (a IA) se torna o seu assistente, que sabe tudo sobre você. Está te aconselhando, sem cometer erros. Essa ilusão se torna tão poderosa que a maioria das pessoas simplesmente se deixa levar. A relação pode se tornar a mais importante da vida de muitas pessoas. Elas vão viver diante de um espelho distorcido de cognição e relacionamento."

A pesquisa aponta para o perigo da ilusão da relação perfeita com a máquina, que pode impactar as relações "imperfeitas" com humanos e fazer com que nos isolemos uns dos outros.

"Temos que ser cuidadosas para não dar à IA o papel e poder de substituir uma terapia", afirma Carla Mayumi.

UOL

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