Uma pane no serviço da Amazon Web Services (AWS), maior provedora de cloud computing (computação em nuvem) do mundo, expôs na semana passada a vulnerabilidade e a dependência generalizada de uma camada quase invisível da internet.
O incidente mostrou que a chamada “nuvem”, parte da infraestrutura da rede responsável por armazenar e processar dados de empresas, governos e instituições a milhares de quilômetros de distância, pode provocar um apagão global.
A falha do serviço de nuvem da provedora, um braço lucrativo da plataforma de e-commerce americana do bilionário Jeff Bezos, afetou o funcionamento de centenas de sites, apps de bancos, comércio eletrônico e redes sociais, além de sistemas de empresas ao redor do globo na última segunda-feira, deixando parte da internet indisponível por 15 horas. Atrapalhou gamers adeptos do Fortnite e até a Alexa, assistente digital da própria Amazon.
Para especialistas, a pane revela como essa parte da engrenagem de serviços essenciais hoje em dia está concentrada em poucas companhias e suscetível a interrupções que só evidenciam a existência desses sistemas quando deixam de funcionar.
Não se trata de um episódio isolado. Outras empresas que concentram partes do ecossistema de infraestrutura da internet também já deixaram o mundo na mão.
Em junho, o Google Cloud amargou falhas intermitentes. Uma incidente na nuvem da big tech impactou tanto seus serviços, como Gmail, Agenda, Meet e Docs, quanto os de terceiros. Aplicativos como Spotify, Snapchat, Discord, Twitch, GitLab e Shopify, que impulsionam o consumo e o fluxo de trabalho de milhões de pessoas, foram afetados.
No ano passado, foi a vez da CrowdStrike, que atua na área de cibersegurança e proteção de endpoints (dispositivos ligados a uma rede, como computadores). Um erro na atualização do seu software derrubou milhões de computadores com Windows, causando falhas nas operações de companhias aéreas, bancos, hospitais e governos.
Impacto em larga escala
Marcos Barreto, professor da Escola Politécnica da USP (Poli-USP) e da Fundação Vanzolini, diz que todos os provedores de nuvem e de cibersegurança estão sujeitos a falhas, erros de funcionamento e ataques externos. O que esses episódios escancaram é a concentração das aplicações em poucos provedores de nuvem, o que amplia os efeitos de uma pane.
Os serviços da AWS — que incluem armazenamento de dados e capacidade de processamento — respondem por quase um terço do mercado global de computação em nuvem. Faturou US$ 29,3 bilhões segundo trimestre deste ano, 17% da receita total da Amazon. Esse braço da companhia supera outras gigantes da computação em nuvem, como Microsoft Azure (US$ 20 bilhões), Google Cloud (US$ 12,8 bilhões) e Alibaba (US$ 3,6 bilhões), segundo dados da Synergy Research Group.
A pane da AWS, segundo a empresa, teve origem em um erro em seu principal e mais antigo polo de data centers dedicados à computação em nuvem, no norte da Virgínia, nos EUA, que concentra várias das chamadas zonas de disponibilidade. Criado em 2006, já sofreu três grandes interrupções nos últimos cinco anos.
Barreto explica que, para reduzir o risco de indisponibilidade, empresas que alugam parte dos servidores de uma provedora de nuvem geralmente configuram sistemas críticos para funcionar em mais de uma zona. Isso significa que, se um falhar, outro pode assumir e garantir o funcionamento do sistema, sem interrupção visível para o usuário. Mas operar sob essa lógica custa caro. Algumas empresas só replicam dados em uma segunda zona para recuperação rápida, mas não necessariamente para operação contínua. Em caso de falha, a troca pode exigir mais tempo.
No caso da AWS, o problema afetou justamente os mecanismos que permitem essa redundância. A empresa identificou uma falha no sistema que traduz nomes de sites em endereços de IP, o que travou a comunicação entre servidores regionais do DynamoDB, o banco de dados da AWS. Isso comprometeu os sistemas que permitem à AWS gerenciar essa troca automática entre zonas, diz o especialista da Poli-USP. Ou seja, mesmo sistemas que normalmente têm redundância ficaram inoperantes.
— O que aconteceu neste episódio foi um pouco mais complicado. A pane afetou sistemas internos — explica Barreto. — Essa é uma ocorrência muito mais rara, mas acontece. A probabilidade é baixa, mas não é zero — explica Barreto.
A AWS pediu desculpas aos clientes pelo impacto causado pelo episódio. “Faremos tudo o que pudermos para aprender com este evento e usá-lo para melhorar ainda mais nossa disponibilidade", disse, em comunicado.
70% do tráfego da Internet
No episódio envolvendo esta região do "US-EAST-1", da AWS, há ainda uma particularidade que torna qualquer falha na região mais impactante. Estima-se, segundo a própria empresa, que 70% do tráfego mundial da Internet passa todos os dias por esta região da nuvem da AWS.
Segundo artigo no jornal britânico The Guardian, o papel da região da Virgínia é comparável ao estreito de Hormuz para a indústria do petróleo - um estreito ponto por meio do qual flui o comércio.
O peso dessa região se deve a alguns fatores, elenca Pedro Teberga, professor do Hub de Canais Digitais da ESPM. A AWS foi pioneira no mercado de nuvem e se tornou a escolha padrão para milhares de empresas e desenvolvedores, o que corroborou para um efeito de concentração. O custo da região onde ela se instalou inicialmente também é ponto-chave: tradicionalmente, o estado da Virgínia oferece preços mais competitivos por conta da escala, incentivos fiscais e densidade de data centers.
Ao longo do tempo, vários outros serviços críticos da própria Amazon — como autenticação, monitoramento e parte do roteamento de tráfego —, foram desenhados para rodar sobretudo nesse hub. Outras regiões também oferecem esses serviços, mas muitas vezes de forma replicada ou dependente, o que explica por que falhas em US-East-1 ganham repercussões globais, diz Teberga.
— A região da Virgínia se tornou o coração da operação da AWS. Ali fica a chamada Data Center Alley, conhecida pela maior concentração de data centers do mundo. Parte expressiva do tráfego mundial de internet passa por lá. Isso explica por que, quando há instabilidade nessa região, os efeitos são sentidos no mundo todo.
Seguro
É comum nas situações de interrupção que algum tipo de seguro acabe sendo acionado pelas empresas que contrataram o serviço da provedora de nuvem. Seja uma plataforma de comércio eletrônico — como o Mercado Livre, que sofreu com a instabilidade —, um aplicativo como iFood ou McDonald's, um aplicativo de mobilidade — como a Lyft, rival da Uber, que também foi afetada -, ou até apps de jogos como Fortnite e Clash Royale, passar horas com a operação fora do ar significa registrar perdas financeiras que podem chegar à casa dos milhões.
Embora pareça lógico pensar que grandes empresas possam evitar sofrer com falhas ao manter dois provedores de nuvem ao mesmo tempo, na prática, essa solução é cara e difícil de implementar. Por isso, poucas empresas mantém dois provedores ativos ao mesmo tempo, o chamado “multi-cloud redundante”.
Isso porque cada provedor de nuvem tem sua própria arquitetura e protocolos, e sincronizar os bancos de dados em tempo real entre sistemas diferentes exige uma infraestrutura duplicada, o que pode dobrar o custo de uma operação.
— Em geral, as aplicações têm bancos de dados que precisam se manter atualizados. E fazer isso entre dois provedores de nuvem diferentes é complicado — diz Barreto, da Poli-USP.
Pressão aumenta
Para Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), há uma percepção das empresas de que as grandes provedoras de nuvem possuem medidas de proteção que tornam apagões em escala global mais raros e menos usuais do que poderiam ser, considerando todo o volume de ataques e vulnerabilidades que acontecem diariamente. Ainda assim, incidentes como o mais recente da AWS expõem como qualquer situação de vulnerabilidade ou indisponibilidade têm um alcance expressivo hoje em dia.
— Quanto mais concentrado é o mercado ou maior é um player, uma indisponibilidade gera uma enorme comoção do mercado e chama atenção para a "internet invisível".
Com grande parte das nossas vidas dependendo dos sistemas digitais hoje em dia, a pressão sobre os serviços de nuvem só aumenta, e eventos como esses destacam a fragilidade desses sistemas, diz:
— Vivemos em um momento que a internet e os serviços digitais mais funcionam do que não. Já estamos muito acostumados de que os serviços serão disponibilizados e estarão lá "24 por 7". E a nuvem é uma pré-condição de tudo isso — conclui Affonso.
O Globo