O sol nem tinha nascido direito e Natal já parecia carnaval fora de época. Não era carreata de político, nem procissão de santo, era o desfile dos corredores de fim de semana. Cada um com seu troféu imaginário: tênis que custa o preço de uma prestação de carro, óculos que promete milagre no pace, cinturinha de compressão que mais parece armadura da Marvel. Até fruta virou joia: banana na mão valendo mais que Rolex.
Mas a estrela da manhã não era nenhum ken bombado de academia, nem as velhinhas de 40 plastificadas. Era ele, Bell Marques. Setentão, cabelão de propaganda de shampoo, sorriso de quem já correu atrás de trio a vida inteira. O baiano passou voando pelos novinhos, leve como quem muda de canal na TV. Atrás dele, um rastro de buchudos de Natal, boyzinhos de 50 suando Tadalafila e gatinhas de 60 tentando ajeitar o top pra não cair na foto.
Nas redes sociais, a overdose era de legendas motivacionais: “A vida é uma corrida”, “Meu corpo, meu templo”, “Gratidão por cada km”. Filosofia de Instagram com close de tênis suado. Bons tempos quando o povo se acabava na pipoca de Bell e amanhecia gritando “Diga que valeu”. Hoje, no máximo, gritam “já postei”.
E lá ia Bell, sem precisar de gel energético, playlist de coach ou massagem de liberação miofascial. Ele era o verdadeiro campeão da “Corrida 100% Você”, porque 100% dos outros estavam 100% mortos atrás dele.
Quem ficou em casa, paciência: levou foi surra de stories. E overdose de pace alheio é pior que ressaca de Campari. Meus amigos viciados em Viagra estavam todos lá.