O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Leandro Safatle, afirma que laboratórios estrangeiros já sinalizaram ao Brasil que podem fornecer fomezipol, substância utilizada como antídoto contra a intoxicação por metanol, que já se aproxima dos 200 casos notificados no país.
Em outra frente, Safatle também diz que a rede nacional está apta a produzir em larga escala o etanol farmacêutico, empregado com o mesmo fim.
O Ministério da Saúde diz não esperar milhares de casos de intoxicação por metanol, mas o governo acionou a rede laboratorial e agências internacionais na busca de antídotos. Qual o potencial de expansão da crise?
A gente trabalha para fornecer o antídoto para a população que precisar, tanto no caso de fomepizol quanto do etanol. A prioridade é fornecer de forma rápida. Como os casos de contaminação por metanol não eram comuns, não havia os registros de produto (no Brasil). Não tinha nem número de casos suficientes para justificar a produção de etanol e do fomepizol internamente. Como estamos tendo mais casos, estamos ajudando o Ministério da Saúde a viabilizar os antídotos no país.
Em que escala, considerando que o número de casos de contaminação é maior do que o histórico recente no país? Como atender à demanda emergencial?
O histórico de casos (de contaminação por metanol) no país é de em torno de 20 por ano. Agora, são 113 suspeitos. Trabalhamos para deixar a população tranquila no sentido de ter o antídoto necessário para o atendimento.
Há produção de etanol farmacêutico no Brasil, mas não de fomepizol. Quais as medidas para disponibilizar os dois no país?
Os dois são antídotos para a contaminação por metanol porque atuam na cadeia de metabolização do metanol, que é o que gera toxicidade no organismo. O método de ação que é diferente. O etanol atua competindo com metanol, e o fomepizol anulando a metabolização do metanol. Para nenhum dos dois a gente tem registro de produção no Brasil. No caso do etanol, você pode fazer essa formulação em farmácias de manipulação. Já temos hoje no país etanol para atender aos casos de contaminação. Muitos hospitais universitários têm um volume desse etanol. O que a gente fez na sexta-feira é uma resolução para regulamentar a produção de etanol em escala industrial, em laboratórios de fato, dando essa capacidade para poder autorizar, viabilizar a produção do etanol em larga escala.
É um processo rápido de produção. Podemos ter produção e fornecimento de etanol no prazo de uma semana.
Já há laboratórios no Brasil capacitados para fazer essa produção em larga escala?
Temos. Inclusive, um laboratório garantiu que pode fornecer de graça para o Ministério da Saúde.
Na questão do fomepizol, a Anvisa consultou órgãos reguladores internacionais sobre a disponibilidade de fornecimento. Já houve respostas?
Sim. Primeiro, a gente consultou as melhores agências reguladoras do mundo, que são de referência, para saber se elas identificam algum produtor de fomepizol com registro nesses países. Já recebemos respostas de quatro agências, de Finlândia, França, Japão e Canadá. Recebemos a lista das empresas com registro de fomepizol. O Ministério da Saúde tem a lista. É o ministério que vai adquirir o produto. Já há laboratórios que indicaram que têm capacidade de fornecer rapidamente o fomepizol ao Brasil.
Como se daria esta compra?
Seria uma aquisição excepcional do Ministério da Saúde, a gente ajuda no processo de internalização e de importação.
Na área da fiscalização, qual é a resposta da Anvisa e dos órgãos estaduais e municipais frente à escalada de contaminações?
A agência ofereceu ajuda às vigilâncias sanitárias locais que receberam casos suspeitos da contaminação por metanol. O Ministério da Agricultura e a associação dos produtores de bebidas alcoólicas estão fazendo um curso para cinco mil fiscais das vigilâncias locais para que eles possam identificar rótulos falsificados e adulterados.
As fiscalizações ficam a cargo das vigilâncias nos municípios e nos estados. A Anvisa só orienta?
O papel principal é esse, de orientação. A vigilância fiscaliza o fornecimento do serviço dos bares e restaurantes. Adulteração de bebidas alcoólicas é ato criminoso, é caso de polícia, não de vigilância.