Italian Brainrot, vídeos de pessoas caindo durante falsas reportagens de TV, gatinhos marombados, montagens com apresentadores de telejornais, milhares de versões do mesmo meme. A cultura digital vive um surto de absurdos e eles têm algo em comum: são sintéticos, foram feitos por inteligência artificial (IA) e não têm nenhum compromisso com qualidade, veracidade ou originalidade. Esse é o mundo do IA slop (desleixo de IA, em tradução livre), uma expressão que circula entre especialistas para descrever o tsunami de conteúdo artificial e tosco que vem dominando a rede.
A combinação entre IA generativa e a lógica de engajamento dos algoritmos criou um monstro. Plataformas como TikTok, Instagram, YouTube e X (antigo Twitter) estão sendo invadidas por textos, vídeos e imagens gerados em massa, sem propósito além de atrair cliques, monetizar visualizações e satisfazer os robôs de recomendação. A promessa inicial de que a inteligência artificial seria uma aliada da criatividade parece dar lugar a um cenário de poluição digital em escala industrial.
A internet já foi chamada de “aldeia global”, onde seres humanos de diferentes lugares do mundo podiam compartilhar conhecimento, cultura e ideias de forma livre. Essa visão utópica começou a ruir à medida que a rede foi tomada por plataformas do Vale do Silício e passou a operar com base na extração de dados, algoritmos de recomendação e modelos de monetização por engajamento. O valor de um conteúdo deixou de estar ligado à sua relevância e passou a depender do quanto ele retém atenção e gera dados para vender a anunciantes.
Esse modelo transformou a internet em jardins murados, onde sair de uma plataforma é cada vez mais difícil, e o conteúdo que circula nelas se molda a padrões que maximizam visibilidade, não necessariamente qualidade. Textos densos e análises aprofundadas deram lugar a vídeos curtos, dublagens engraçadas e formatos fáceis de replicar. Textões viraram dancinhas.
“Já existia muito conteúdo de baixa qualidade antes da IA generativa: colagens, traduções não creditadas, cópias de conteúdos estrangeiros”, explica o consultor de tecnologia e especialista em cultural digital Edney Souza, que já na década de 2000, produzia conteúdo para seu blog InterNey. “A IA só potencializa esse cenário, porque consegue gerar muito volume com base no que é mediano. E como ela é um cálculo estatístico da média, o resultado tende a diluir a qualidade da informação”, diz.
Com ferramentas como ChatGPT, Gemini, Meta AI o recém-lançado Veo3, do Google se infiltrando no nosso dia-a-dia, inclusive em mensageiros instantâneos e o próprio buscador do Google, ficou banalmente fácil gerar vídeos realistas, vozes sintéticas e textos supostamente informativos com poucos cliques. O que antes exigia horas de pesquisa e escrita agora pode ser feito em segundos. E como o algoritmo não mede a autenticidade, e sim a performance, esse tipo de conteúdo passou a proliferar nas plataformas.
Mas o fenômeno do IA slop não surgiu do nada. Um de seus sinais mais precoces apareceu em 2016, antes mesmo do boom da IA generativa, com o escândalo conhecido como Elsagate. Milhares de vídeos infantis invadiram o YouTube com animações mal feitas, roteiros sem sentido e situações bizarras, de personagens como Elsa, Homem-Aranha ou Peppa Pig em cenas de violência, escatologia ou fetiches médicos. Muitos desses vídeos pareciam feitos por robôs, criados para burlar o algoritmo e capturar o olhar ingênuo das crianças. E funcionou. Durante anos, esse lixo digital foi monetizado sem controle.
Corta para 2025, e o Elsagate parece mais um ensaio geral para a internet como um todo. Hoje, o que se vê nas plataformas é uma avalanche de vídeos gerados por IA: montagens de memes reciclados, imagens bizarras de pessoas deformadas e monstruosas, histórias protagonizados por gatinhos marombados, tudo empacotado com vozes sintéticas e trilhas repetidas. A estratégia não é criar algo bom, mas gerar tanto conteúdo que algum viralize.
“Há um pico agora porque a IA se tornou acessível a todos, tanto para quem cria quanto para quem consome. Mas a tendência é que esse deslumbramento inicial diminua. Quando todo mundo percebe que pode gerar aquele tipo de conteúdo, ele perde o brilho. As pessoas começam a se questionar: vale a pena gastar meu tempo com isso?”, opina Edney.
Slop demais, conteúdo de menos
Um dos exemplos mais emblemáticos do momento é o meme Italian Brainrot. À primeira vista, parece só mais uma trend engraçada, com montagens exageradas de cultura italiana. Mas ele se espalha como uma praga porque é fácil de copiar, tem estética chamativa e toca no grotesco — e isso funciona especialmente bem com crianças e adolescentes. O problema é que, junto com ele, o TikTok foi tomado por vídeos parecidos: personagens deformados, monstros, distorções faciais e cenas surreais geradas por IA. Quanto mais esquisito, melhor.
Se antes as plataformas eram permissivas com esse tipo de conteúdo, agora começam a reagir. O YouTube, por exemplo, anunciou que vai atualizar suas regras de monetização para dificultar o lucro com IA slop: vídeos repetitivos, em massa, com uso de vozes ou legendas geradas automaticamente, sem comentários ou contexto original, reutilização de material de terceiros sem mudanças significativas — ou seja, tudo aquilo considerado inautêntico, sem autoria humana. Com isso, a estratégia da monetização pela força bruta de geração de conteúdos desleixados, feitos em IA ou não, não funcionará mais na plataforma. A medida entra em vigor a partir do dia 15 de julho.
Embora seja uma primeira medida contra o IA slop, o estrago já está feito. E em meio a esse mar de conteúdo automatizado, o que se perde é justamente o que deveria valer mais: o conteúdo humano. Blogs, fóruns, sites e vídeos autorais somem todos os dias, por falência de empresas, desligamento de servidores, por decisões pessoais, por supostas violações de direitos ou simplesmente por desinteresse. Ao mesmo tempo, a IA segue gerando milhões de novos conteúdos por dia, a um ritmo alucinante, a maioria deles sem qualquer autoria ou curadoria.
Esse fenômeno alimenta a chamada teoria da internet morta: a ideia de que estamos vivendo em uma web onde a maioria do conteúdo é feita por robôs e consumida por outros robôs. “Essa ideia da internet zumbi faz sentido e está acontecendo agora. O volume aumentou tanto que causa sobrecarga. E como o tempo das pessoas para consumir não aumentou, muito desse conteúdo não tem alcance. Mas isso vai provocar uma reflexão sobre o que vale a pena seguir, consumir, priorizar”, afirma o especialista.
Do deslumbre à fadiga
A sobrecarga de slop, no entanto, pode ser um estopim para mudança. Se todo mundo começa a gerar e ver o mesmo conteúdo, ele deixa de ser especial. Se tudo parece raso, a profundidade pode voltar a ser um diferencial. “A IA pode ser uma ferramenta para elevar a produção humana, não substituí-la. As melhores ideias, que antes não saíam do papel por falta de tempo ou recurso, agora podem ser viabilizadas com a ajuda da IA. É aí que mora a chance de reverter o jogo”, diz Edney.
O especialista também acredita que o impacto da IA será assimétrico: vai prejudicar principalmente o conteúdo de redes sociais, mas pode forçar uma mudança positiva na forma como a web é indexada e catalogada. “Para ranquear no Google ou ser fonte de uma IA, o conteúdo precisa ser mais profundo, mais argumentativo. Isso exige mais qualidade. O IA slop é o oposto disso. Então veremos a internet se esticando em direções opostas”, conclui.
A internet como conhecemos está morrendo? “Eu colocaria esse ‘morrendo’ entre aspas. A internet é um reflexo da humanidade”, opina Edney. “E a humanidade está passando por uma fase difícil, com intolerância, polarização, conflitos. Tudo isso se reflete na rede. O que a IA faz é amplificar. Mas também pode ser usada para reconstruir.”
Estadão