Ser rico em Natal não é ter dinheiro. É ter pelo menos duas parcelas atrasadas do Compass, olhar para o boleto e dizer “mês que vem eu pago” enquanto pede o Campari, não pelo gosto (que é de purgante com cheiro de bufa), mas porque uma dose dura a noite toda. É dever a dois agiotas, mas continuar posando no Instagram com legenda “trabalhando muito”.
O rico raiz come lagosta, mas manda a empregada comer arroz com ovo na cozinha. Compra bolsa de alto luxo falsificada, “réplica perfeita” com direito a etiqueta de Paris enviada pelo motoboy de Parnamirim. Deve em pelo menos três lojas famosas da cidade e mesmo assim reclama que não existe crédito no Brasil.
Viaja, desfila com carro novo, ostenta vida de milionário, mas quando o assunto é pensão do filho, entra na justiça para pagar um salário mínimo e ainda acha que está sendo generoso. Pode atrasar a escola das crianças, só pagar a luz quando completar três contas, mas não deixa de alugar um muquifo no Villa Imperial para veranear “em alto estilo” no Porto Brasil.
No condomínio, exige melhorias na piscina, no mobiliário e na portaria, mas na assembleia vota contra qualquer taxa extra. No restaurante, pega as sobras da mesa de amigos, coloca na embalagem e diz que vai dar para um morador de rua, utiliza a comida no almoço do dia seguinte.
Esse é o verdadeiro rico natalense: um artista da encenação, mestre em viver de aparência e doutor honoris causa em passar vergonha com classe. O pior é quando o cara é parado na blitz e não pagou o IPVA, diz que "esqueceu".