O atleta da Meia Maratona do Sol é uma figura pronta para foto. Óculos baixa pace escuros, relógio de última geração que custa o preço de uma moto, meia colorida cheia de símbolos (a azul é para quem quer namorar) e, claro, o tênis com placa de carbono. Antes da largada, já postou três stories: um com o gel de energia, outro com o isotônico e um reels mostrando a roupa do dia. Já ia esquecendo, para participar da Meia do Sol tem que ir para o cabelereiro e fazer maquiagem.
Na pista, o pace é alto, a pose é na estratosfera. O suor mal começou e já tem selfie. Uns vão para correr, outros param para tirar foto. No final, todos juram que “a sensação de completar é indescritível” — mesmo que estejam quebrados e não haja arnica que dê jeito.
A cena mais divertida acontece na chegada. A disputa não é pelo pódio, é pelas banheiras de gelo. Vai ter banheira de gelo misturada com suor e catinga disponibilizada pelas equipes de corridas. Prometem recuperação, antes de entrar eu tomaria uma ivermectina. Imagine a sujeira em uma banheira dessa.
Nos bastidores, cada corredor é também nutricionista, fisioterapeuta e cardiologista. Entende de tudo, são verdadeiros cientistas. Só autoridades.
Corrida e igreja viraram o novo Tinder. O pega pega é grande. Tem careca que diz: quando quer namorar, vai nos 5km; quando quer exercício, faz os 10km; quando quer ser fiel, encara os 21km (a turma dos 21 não é instagramavel). Apesar de todos os “benefícios” correr envelhece e deixa a pessoa toda quebrada. Mas é “ótimo”!
E ainda teve a amiga que colocou silicone e desistiu da prova: “correr estraga meu investimento”, jurou. Moda ou paixão, a corrida mudou a cidade. Até motel de manhãzinha ganhou fluxo novo, porque depois de tanto suor, tem sempre quem queira esticar o alongamento com movimentos pélvicos repetitivos, mas sempre é melhor tomar um banho antes.
É correr e postar.