Em Muriú, inventaram o Lulu’s Day. Festa tradicional só para mulheres. Feminina, exclusiva, local que as meninas da Sociedade Decadente se encontram. A confusão começa quando as meninas do Cortiço da Sociedade Decadente, a 4° classe, descobrem que nem todas foram convidadas. Em Muriú, convite virou documento de certificação de status social. Quem entra na festa, entra na sociedade. Quem não entra, segue sendo só veranista, fica só olhando as Lulu's. A vantagem da festa é que não exigem Serasa. Se precisasse metade seria barrada. A maioria só entra no débito, nunca no crédito.
Temos acesso ao grupo das luluzinhas. Uniforme obrigatório. Todas iguais. O tecido saiu por R$ 62. A barra, depois de intensa negociação sindical com a costureira, ficou em R$ 10. Ano passado foi R$ 15 e quase teve racha no grupo. A crise chegou à elite decadente. Luxo hoje é desconto.
A banda e os petiscos fecharam em R$ 150 por cabeça. Comida mínima. Elas não comem mais. Estão todas na caneta de Mounjaro. Oficial, paralela, genérica, tanto faz. O importante é caber no vestido igual ao da outra. Mulheres não se gostam, se odeiam, o esporte preferido é falar mal da outra e bater fotos com sorrisos amarelos (quer dizer, brancos, todas já fizeram clareamento nos dentes).
Vão beber, tirar fotos iguais, postar legendas falando de amor, amizade, grupo, tudo belela, elas se odeiam e vão só para competir. A diferença social entre elas podem ser vista nos detalhes: umas vão de bijuteria parcelada, outras de joias herdadas da avó depois de briga feia no inventário.
No fim, todas alegres. Quem entrou, venceu. Quem ficou de fora, que aguarde o próximo Lulu’s Day. Em Muriú, pertencimento não é sentimento. É convite. Foi para o Lulu's Day, vestiu a canga, pode comemorar, entrou no barco furado do Titanic de Muriú.