A Polícia Federal (PF) deflagrou ontem a segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no Banco Master. A nova etapa concentra as atenções nas relações entre a instituição financeira do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e os fundos de investimento da gestora Reag. Os desdobramentos do caso evidenciam um amplo esquema de fraude, no qual o dinheiro se movia por uma teia de fundos.
O bloqueio e o sequestro de bens somaram R$ 5,7 bilhões em uma operação com 42 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. As investigações apuram se foram praticados os crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira e manipulação de mercado e lavagem de capitais.
Enquanto a primeira fase, em 18 de novembro do ano passado, resultou na prisão de Vorcaro — solto 11 dias depois, com tornozeleira eletrônica —, a atual explora os laços do ex-banqueiro, com operações de busca e apreensão, entre familiares e empresários. Os alvos incluem o pai dele, Henrique Vorcaro, a irmã, a empresária e pastora evangélica Natália Vorcaro Zettel, e o cunhado, Fabiano Zettel, advogado e pastor.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, relator do caso, afirmou que a prisão temporária dele era “imprescindível para as investigações”. Zettel é considerado pessoa de confiança de Vorcaro e estava prestes a embarcar para Dubai quando foi detido temporariamente e depois liberado. Seu celular foi apreendido. Os investigadores suspeitam que Vorcaro vinha desviando recursos do banco para o patrimônio pessoal dele e de parentes.
Em outra frente, os investigadores apreenderam o celular do empresário Nelson Tanure, quando ele estava prestes a embarcar no Galeão rumo a Curitiba. Investigações mostram que ele tinha um histórico de atuação em parceria com Vorcaro e que injetou R$ 2,5 bilhões no banco, do qual teria se tornado um sócio oculto, conforme reportagem da colunista do GLOBO Malu Gaspar.
Além dele, foi alvo da operação o fundador da Reag, João Carlos Mansur. A gestora, que administra fundos suspeitos de participação no esquema, também está no foco da Operação Carbono Oculto, que revelou os laços do PCC na economia.
A operação realizada ontem foi marcada ainda por divergências entre Toffoli, ministro que é relator do caso, e a PF. O ministro se queixou da demora para cumprimento das decisões e chegou a decidir que as provas deveriam ser lacradas e guardadas na sede do STF. Só voltou atrás após pedido da Procuradoria-Geral da República.
Toffoli autorizou a operação de ontem depois que a PF informou ter identificado suspeitas de “novos ilícitos” cometidos por Vorcaro. Inicialmente, o ministro havia rejeitado a medida, mas reconsiderou sua posição a pedido da PF e da PGR.
Na operação foram apreendidos R$ 645 mil em dinheiro, dos quais R$ 97 mil na casa de Vorcaro. O balanço da Compliance Zero lista ainda 39 celulares, 31 computadores, 30 armas, incluindo fuzil, metralhadora e carabina, e 23 veículos avaliados em R$ 16 milhões.
Nesta semana, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o caso Master pode ser a maior fraude da História do país.
Extensa rede de contatos
O Banco Master ganhou espaço no mercado oferecendo CDBs com remuneração de até 140% do CDI, muito acima da praticada pelas instituições rivais, o que atraiu quem buscava maior rentabilidade. Atualmente, um contingente de 1,6 milhão de investidores aguarda ressarcimento via Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A perspectiva de pagamento, prevista para começar na semana que vem, não é afetada pela operação. O rombo é de R$ 41 bilhões, cerca de um terço dos recursos do FGC.
Essa avidez na emissão de CDBs está na origem da crise. Em pouco tempo, o ritmo rápido de emissões fez com que o banco tivesse um grande volume de pagamentos a honrar no curto prazo, enquanto suas receitas estavam atreladas a aplicações que só se concretizariam no longo prazo, gerando um descompasso.
Até agora, as investigações indicam que, ao fim de um longo caminho, as operações irregulares eram concluídas com a volta de ao menos parte do dinheiro ao banco na forma de novos CDBs, em um ciclo completo de fraude.
Desde 2024, o Banco Central vinha monitorando a situação do Master e apontou que a instituição vivia crise aguda de liquidez. Fora do jargão econômico, não tinha dinheiro para honrar obrigações. Chegou a suspender o depósito de compulsórios (a parcela que os bancos precisam deixar no BC).
Ontem, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, reuniu-se com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, em um encontro de pouco mais de uma hora. Em um registro nas redes sociais, a PF afirma que as autoridades enfatizaram “a importância da cooperação e da integração entre as instituições, fortalecendo o diálogo e a atuação conjunta em temas estratégicos de interesse do Estado”.
Em março do ano passado, Vorcaro tentou resolver a crise, com uma oferta de compra pelo BRB, banco estatal do Distrito Federal. O negócio surpreendeu o mercado. A operação acabou vetada pelo BC em setembro.
A primeira etapa da Compliance Zero, em novembro, explorou um suposto esquema de criação e negociação de títulos de crédito falsos, que teriam sido usados para inflar artificialmente o balanço do Master, com vendas de carteiras de crédito falsas ao BRB.
O negócio é estimado em R$ 12,2 bilhões. Após o imbróglio, nesta semana, o governo do DF veio a público informar que, se o banco tiver prejuízo com o Master, assumirá a conta.
Na véspera da operação da PF no ano passado, Vorcaro ensaiou nova transação de venda do banco para a Fictor, instituição que hoje enfrenta dificuldades para cumprir obrigações com investidores e que, na ocasião, dizia contar com recursos de investidores árabes.
O que a segunda etapa da Compliance Zero indica é que o esquema não se restringia ao banco e pode envolver empresas, fundos de investimento e parceiros comerciais. O modelo de atuação do Master só prosperou por tanto tempo porque o principal investimento de Vorcaro ao despontar na Faria Lima não foi em aplicações financeiras, mas em uma extensa rede de contatos em Brasília, com diversas frentes.
O esquema do Master incluía a concessão de empréstimos a empresas, que, após receberem os recursos, faziam aplicações em fundos da Reag. A partir daí, por meio de uma série de transações-relâmpago, o dinheiro era transferido de um fundo para outro. Em muitos casos, esses fundos eram compostos por papéis de baixo valor, que eram reavaliados de forma a registrar uma valorização contábil, sem qualquer vínculo com a realidade.
Em um dos casos, revelado pelo GLOBO, a valorização obtida ao final dessa operação era de 10.502.205%, o que, segundo o MPF, reforça os indícios de que se tratava de fraude. Ao final dessas transações, alguns fundos retornavam os recursos para o Master, fazendo aplicações em CDBs.
O outro lado
Em nota, a defesa de Vorcaro disse que tomou conhecimento da medida de busca e apreensão e reafirmou que ele “tem colaborado integral e continuamente com as autoridades”. Disse ainda que “todas as medidas judiciais determinadas no âmbito da investigação serão atendidas com total transparência” e que Vorcaro está à disposição para prestar esclarecimentos.
A defesa de Tanure afirmou que a única medida imposta foi a apreensão do celular e que o empresário tem certeza de que, no decorrer das apurações, “restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda da relação (com o banco)”.
Ao Jornal Nacional, a Reag disse desconhecer menções de autoridades ao PCC.
Os demais alvos da operação foram procurados, mas não houve resposta.
O Globo