O primeiro requisito para veranear em Búzios é simples: não ter dinheiro para comprar ou alugar casa em Pirangi. É uma escolha social antes de ser geográfica. Um degrau abaixo do sonho. Mas há consolo: poderia ser pior. Poderia ser Tabatinga, onde o vento faz a curva e a paciência faz as malas.
Falando em Tabatinga, o Águas de Tabatinga é uma espécie de cursinho preparatório do veraneio. Piscinão de Ramos potiguar, densidade máxima de farofada por metro cúbico. Todo mundo ali carrega o mesmo sonho coletivo: um dia atravessar o portal e “chegar no Porto Brasil”. É estágio. Ainda não é paraíso, mas dá para postar uma foto do Campari, a bebida oficial do condomínio.
Búzios, por sua vez, é resiliência. É aceitar que tudo está a menos de 10 km em Pirangi e a duas horas no relógio porque é engarrafado. É aprender a sair cedo e chegar tarde. Tem a turma de Pirambúzios, que passa o verão explicando que “é quase Pirangi”. Outros defendem, com tese e PowerPoint mental, que o mar em frente à casa é calmo, detalhe: Búzios tem a maré mais violenta da Grande Natal.
Quando todos ficam presos ali, perto do cajueiro de Pirangi com o sol queimando, sem o carro sair do lugar, bate um pensamento coletivo: “se tivesse uma poda…”. A fila anda devagar, o suor escorre, o paredão de som toca estourando seus tímpanos, as casas se amontoam uma entrando na outra, as moscas fazem hora extra e ninguém admite o cansaço. Está tudo bem. Sempre está. É sorrir e postar no Instagram.
É o momento de reunir a família, lotar a casa, criar fila no banheiro e dar adeus à privacidade. Veranear em Búzios é isso: não é onde você está, é para onde você diz que quase foi. Depois de Pirangi tudo é periferia.