O Cortiço da Sociedade Decadente de Muriú viveu um desses momentos históricos que merecem placa: o sushi comunitário. Rodízio raiz, daqueles de encher o bucho e humilhar qualquer nutricionista.
A lenda do “todo mundo no Mounjaro” caiu por terra em cinco minutos. Eram 85 corticeiros comendo como se fossem 200. Um ataque coordenado. Quando a mesa abriu, foi igual bolo comunitário no interior: ninguém pergunta, só avança. Vi senhora enchendo bolsa de sushi como quem garante o almoço da semana. Pensei que alguém ia sair dali sem um braço ou uma perna. O reboliço foi grande. A dignidade foi para o brejo, o que importava era salvar seu pedaço de peixe cru.
Aquilo não foi jantar, foi abastecimento estratégico. O almoço de hoje da maioria das casas do Cortiço estava resolvido ali, em cima da mesa. Economia solidária aplicada à proteína crua.
E, mesmo nesse cenário de escassez alimentar e dignidade em queda livre, ainda existe esperança para a velha Muriú, que no século passado já mandou no RN e hoje não manda em nada. A salvação pode vir da política, claro. Nada como uma eleição indireta para o governo do estado para devolver a autoestima perdida da comunidade. Se vier o Buda é a redenção do litoral norte. O Cortiço acredita. Agora é digerir o peixe cru.