Ao comparar a audiência do Flow Podcast à da novela das nove da Globo, Lula não apenas provocou a emissora em seu terreno comercialmente mais sensível, como atingiu, por tabela, toda a cadeia produtiva por trás desse produto: autores, diretores e, sobretudo, a classe artística, setor que historicamente mantém proximidade com o PT e que tem se posicionado publicamente a favor da reeleição do presidente.
Ao afirmar, em ato de campanha no Rio de Janeiro, que seu podcast "teve mais audiência do que a novela", Lula sugere que o entretenimento produzido pela emissora perde relevância diante de sua própria narrativa política.
A fala entrega um recado ambíguo justamente ao público que mais o apoia nos bastidores da teledramaturgia: o sucesso do presidente seria, implicitamente, maior do que o da própria produção que atores, atrizes e autores simpáticos à sua candidatura ajudam a sustentar.
A declaração se soma a uma sequência de ataques do petista à Globo na reta final da campanha, que incluiu sua ausência no debate presidencial cancelado na véspera e críticas à emissora por conta do fim das bets.
O episódio expõe uma contradição na relação de Lula com setores tradicionalmente alinhados a ele: ao atacar a Globo como estratégia eleitoral contra o que chama de manipulação da mídia, o presidente acaba colocando em xeque, mesmo que indiretamente, o trabalho de uma classe artística que figura entre suas bases históricas de apoio público.